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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Antes de partir para uma barricada, é necessário uma ideia na cabeça!

Augustin Souchy Bauer (1892-1984) foi um militante anarquista alemão. Viveu na Suécia, Espanha, França, México, Cuba, entre outros lugares, desenvolvendo uma intensa militância anarquista em todos os países em que residiu, chegando a trabalhar com anarquistas como Rudolf Rocker, Piotr Kropotkin e Buenaventura Durruti. 
Iniciou sua militância atuando na União Socialista Libertária de Berlim (impulsionada por Gustav Landauer), em 1912, mesma data em que inicia sua colaboração na imprensa libertária.
Em 1914, durante a primeira guerra mundial, se refugia na Suécia, onde também é perseguido. Em Estocolmo, entre outros militantes socialistas, conhece Vladimir Ilitch Lenin.
Em 1917, no desenrolar da revolução russa, publica um folheto intitulado “A Ditadura & O Socialismo”, onde rechaça a idéia da ditadura como instrumento da revolução social. Em 1919, retorna para Berlim, onde torna-se um dos editores do periódico libertário Der Syndicalist (entre 1922-1933).
 Em 1921, viaja para a Rússia, como membro da União Livre dos Trabalhadores da Alemanha (F.A.U.D.), assiste (enquanto observador) a fundação da Internacional Sindical Vermelha (Profintern), onde conhece dirigentes bolchevistas como Karl Berngardovitch Radek, Grigori Yevséievich Zinóviev, Anatoli Vasilevitch Lunatcharski, Nikolái Ivánovich Bujarin, entre outros, que mais tarde serão assassinados por ordem de Iósif Vissariónovich Stalin. Nessa mesma viajem conhece Piotr Kropotkin, com o qual pode conviver durante alguns dias.
 Entre 1920/1921, participou da reorganização da Associação Internacional dos Trabalhadores (A.I.T.), na qual atuou intensivamente até o advento do nazismo, quando se viu obrigado a refugiar-se na França em 1935.
 Em 1936, ao ter notícias sobre a guerra civil espanhola, Augustin Souchy, então com mais de 40 anos, foi voluntariamente lutar na Espanha. Participou da Confederação Nacional do Trabalho (C.N.T.), atuou nas frentes de batalha até ser ferido gravemente. Passou para a retaguarda, onde dirigiu o Serviço Internacional de Informação e Propaganda sobre o avanço do povo espanhol contra o totalitarismo fascista. Nesse período, publicou um dos seus livros mais conhecidos “A Semana Trágica em Maio” (ainda não lançado no Brasil), um dos poucos relatos de primeira mão, sobre as jornadas de Maio de 1937, na Espanha.
 Após a implantação da ditadura franquista na Espanha, Souchy passa para um campo de refugiados na França, até que em 1942, se refugia no México.
 Em 1948, se desloca para Cuba com a finalidade de participar ativamente no projeto anarquista naquele país. Em 1950, viajou para Israel, onde estudou os Kibbutzim (coletividades comunitárias) como experiência coletivizadora.
 No fim da década de 1950, realizou uma seqüência de conferências pela América do Sul com o intuito de alavancar o sindicalismo, chegando à passar pelo Brasil (Novembro de 1959), em evento organizado pelo Centro de Estudos Professor José Oiticica (C.E.P.J.O.), no Rio de Janeiro.
 Em 1962, a Editora anarquista Germinal (Rio de Janeiro), publicou o livro “O Novo Israel” de Augustin Souchy no Brasil. Em 1963, a Organização Internacional do Trabalho contratou-o como perito em educação.
 O militante português Roberto das Neves (que viveu no Brasil e foi fundador da Editora Germinal), conheceu Souchy, ainda durante a época da revolução espanhola, e sobre ele escreveu o seguinte: “Augustin Souchy (...) trocando com facilidade a pena pelo fuzil e vice-versa, segundo as exigências da (...) liberdade (...)”.
 Apesar de sua intensa militância anarquista em várias partes do mundo, e de seu extenso trabalho como periodista e escritor, pouco se conhece do seu pensamento e de sua obra no Brasil. Resolvemos divulgar o texto abaixo, pois o mesmo faz uma interessante análise do socialismo e da política internacional no período pós-segunda guerra mundial e entendemos que boa parte da reflexão de Augustin Souchy ainda tem muito a contribuir conosco nos dias atuais, inclusive, com as últimas manifestações que tem ocorrido no Brasil.


Que podemos esperar do movimento social ?

No movimento social existem, desde sua origem, duas tendências: uma acena aos trabalhadores a fim de que realizem sua emancipação através da sua intervenção e da sua ação direta coletiva; a outra pede ao povo seus votos em favor dos candidatos socialistas para que estes transformem, por vias parlamentares e legislativas, a sociedade capitalista em uma sociedade socialista. Também existe uma terceira tendência que aceita tanto a tática reformista como a revolucionária, segundo as circunstâncias. À primeira tendência pertencem os libertários e os anarco-sindicalistas; à segunda e terceira os marxistas de todas as escolas. A social-democracia alemã e os social-democratas de todos os países representam a ala moderada, os bolchevistas e os comunistas a ala radical do marxismo.
Depois da primeira guerra mundial, os socialistas tiveram a oportunidade de realizar as suas idéias. Os bolchevistas russos e os social-democratas alemães galgaram o poder em virtude de revoluções populares. Os ideais socialistas se condensaram em fórmulas concretas e as teorias começaram a se pôr em prática. Os governantes social-democratas e os comunistas elaboraram novas constituições e leis. Os comunistas russos pretenderam realizar uma obra completamente inovadora, estabelecendo a propriedade estatal da terra e dos meios de produção, no lugar da propriedade privada. Os social-democratas alemães limitaram-se a promulgar uma constituição democrática e a fixar garantias legais para o direito de organização e de greve, ampliando a legislação social em vigor. Nos anos posteriores, os partidos operários chegaram ao poder em alguns outros países, por meio de vitórias eleitorais. Em nenhum deles, porém, se atreveram a transformar o sistema capitalista em um sistema socialista. Limitaram-se a elaborar leis destinadas a promover o progresso social dentro da sociedade capitalista. O partido trabalhista da Grã-Bretanha tomou um caminho “sui generis”, criando uma legislação de seguro social que compreende a nação inteira e adotando, ao mesmo tempo, uma decisão parlamentar em virtude da qual o Estado adquiriu as grandes propriedades privadas, como o Banco da Inglaterra, as minas, as estradas de ferro e outras importantes indústrias, substituindo assim, em grande parte o capitalismo privado pelo capitalismo estatal.
Estas medidas tiveram como conseqüência uma certa alteração estrutural do Estado e da economia. O Estado liberal do século passado deixou de existir. Seu sucedâneo moderno é como se fosse um empresário econômico e comercial, assim como que uma organização de seguro social. A legislação social também foi adotada no clássico país do capitalismo privado, nos Estados Unidos, onde, sob a presidência de Roosevelt se legislou sobre indenizações estatais aos trabalhadores em casos de doenças, velhice e desocupação. É assim como certas reivindicações socialistas do século passado foram realizadas dentro do regime do capitalismo privado. As injustiças mais flagrantes foram atenuadas, o que tinha que dar como resultado que o descontentamento de certas camadas sociais também viesse a diminuir. Entre os defensores do capitalismo há elementos inteligentes que sabem dirigir o barco social com a habilidade de um piloto experimentado que sabe evitar os escolhos e as rochas perigosas e conduzi-lo para as águas tranqüilas da evolução pacífica. Graças a essa habilidade de manobra conseguiram manter o sistema do capitalismo privado, cujos alicerces ainda não estão profundamente abalados, não obstante as guerras e revoluções até hoje ocorridas.
Esse estado de coisas tinha que produzir forçosamente certas repercussões na mentalidade dos povos, criando determinadas disposições psicológicas na classe trabalhadora. O evangelho socialista perdeu grande parte do seu poder de sugestão. A situação político-social existente nos países orientais da Europa, com as chamadas “democracias populares” e o seu capitalismo estatal que oprime e explora as massas mais que o capitalismo privado, muito contribuiu para desacreditar a ideologia socialista em geral.
O sistema do capitalismo estatal criou uma ideologia totalitária que não permite qualquer oposição. Os sistemas de opressão e repressão são de uma brutalidade quase sem precedentes. Além disso, deu lugar a uma categoria de elites estatais, tal como na antiga Esparta. O abismo psicológico entre o Oriente e o Ocidente se alarga cada vez mais. A juventude da União Soviética não sabe o que é a liberdade; e as novas gerações dos países “democráticos populares” também não têm a oportunidade de se formar uma concepção da liberdade individual, educadas, como são, num espírito de submissão ao Estado nacionalista. A liberdade presenteada não pode ter valor, nem consistência e só as liberdades conquistadas pelo esforço consciente e voluntário realizam a dignidade do indivíduo.
Nos países ocidentais, onde o Estado apenas controla uma parte da economia, a mentalidade popular ainda não está inteiramente fundida no molde estatal, ainda há, felizmente, certa independência de critério. Os trabalhadores aceitam as vantagens do seguro social, porém, geralmente não se sentem submetidos perante o Estado patrão. Não vacilam em se declarar em greve contra o mesmo, quando os seus interesses de produtores assim o exigem, coisa inimaginável nos países totalitários, tanto por razões de força estatal, como pelos resultados de uma escravidão voluntária, conseqüência, por sua vez, de uma educação toda especial. Nos últimos tempos, os funcionários estatais em França, declararam freqüentes greves, assim como também os estivadores de Londres, não obstante a hostilidade do governo laborista contra essa medida. Nos Estados Unidos, a luta dos trabalhadores das vigas de aço, conduzida com o fim de conquistar pensão para a velhice, é um fato também sintomático. A pensão para a velhice constitui uma parte do programa do socialismo reformista. Não obstante, o movimento sindical é, na sua maioria, contrário a toda a idéia de estabelecer um regime socialista, limitando-se a lutar para obter melhores condições de vida dentro do capitalismo. Todas essas lutas demonstram que os trabalhadores dos países ocidentais têm mais possibilidades de adquirir vantagens sociais que os seus irmãos de classe nos países das chamadas democracias populares do leste europeu.   
As conclusões que desses fatos se derivam, são claras: a transformação da propriedade privada em propriedade estatal não elimina a exploração capitalista; o capitalismo estatal não proporciona aos trabalhadores melhores condições de vida, em comparação com o capitalismo privado. O antagonismo de classes, a existência de exploradores e explorados, é manifesta sob ambos regimes. O capitalismo estatal não fornece aos trabalhadores melhorias econômicas e ainda os priva de uma relativa liberdade de ação. Isto é uma prova flagrante de que a liberdade e o bem-estar formam um conjunto indivisível: uma não pode existir sem o outro.
Como conseqüência das más condições econômicas e da opressão política reinante nas “democracias populares”, observa-se certo pessimismo nos ambientes do movimento social proletário. As últimas eleições parlamentares na Áustria, Alemanha e Noruega foram terríveis derrotas para os comunistas. Os social-democratas conseguiram manter sua posição devido ao seu programa simplesmente reformista, que oferece vantagens inclusive à classe burguesa. Esse setor político já não vê no capitalismo o seu inimigo mortal e não sente o menor desejo de propagar uma verdadeira transformação da sociedade. Depois da segunda guerra mundial não houve revoluções surgidas dos povos. Todas as transformações efetuaram-se pelas autoridades, de cima para baixo. E essas alterações não afetam o regime capitalista no seu fundo social. A exploração capitalista trocou de formas, porém, continua mantendo a sua essência. O capitalismo aproximou-se do socialismo estatal e este absorveu os princípios do capitalismo. Ambos se entendem muito bem.
Não obstante, o socialismo livre continua conservando o seu valor revolucionário e transformador. O certo é que já não se pode conceber o socialismo como um sistema cerrado e perfeito, capaz de converter o inferno capitalista em um estado de coisas paradisíaco. O socialismo estatal é a corrupção das idéias socialistas. Nada se perderá quando as instituições opressoras se eliminam e quando o bem-estar geral aumenta sem o estabelecimento do socialismo estatal.
O processo emancipador da humanidade não se cumprirá com a criação de novas instituições estatais, e sim muito melhor, mediante a desconfiança nas autoridades estatais e nos dirigentes políticos profissionais. O socialismo libertário oferece fórmulas de solução singelas e concretas: controle direto e permanente da economia pelos produtores e consumidores; estrita e ininterrupta vigilância da vida publica por todos os cidadãos; iniciativa do povo em vez da intervenção dos governos.
A liberdade e o socialismo não são realidades que possam surgir de decisões governamentais. Devem ser conquistadas e vividas. Só florescerão e se desenvolverão se soubermos defendê-las diariamente, na criação e na luta.

Por Agustin Souchy,


A Plebe (São Paulo), 1 de dezembro de 1950, número 29, página 3.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Velhos textos...Novas Reflexões...

O Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri retorna com novidades em nosso Blog, em sua primeira publicação de 2013.
Voltamos ao trabalho de resgatar artigos históricos da imprensa anarquista brasileira e, desta vez, fizemos um levantamento de três textos, de épocas diferentes, escritos por militantes distintas/os, que abordam a questão da participação feminina nos meios anarquistas, assim como seus pontos de vista. Todos esses escritos, à sua maneira, abordam questões históricas e ideológicas de extrema importância em nosso entendimento.
O movimento anarquista começa a se organizar em São Paulo, a partir da publicação do periódico anarquista Gli Schiavi Bianchi em 1892.
O nosso primeiro texto foi escrito por volta de três anos após o surgimento do primeiro periódico anarquista paulista. Ele data de 1895 e foi publicado originalmente no periódico anarquista L’Avvenire, também em São Paulo.
Notadamente escrito por um militante anônimo e intitulado de “A Mulher e a Anarquia”, ele trata da (pouca) participação feminina nos meios anarquistas da época.
Algumas passagens chamam a atenção no texto: o autor, há 118 anos atrás, já reconhece a dupla jornada feminina na sociedade, ao trabalhar para sustentar a família e ao mesmo tempo realizar os afazares domésticos (reforçando que eles não são menos penáveis que o primeiro), destacando que a mulher suporta a parte mais pesada dos encargos sociais. No artigo, o autor conclui que a educação retrógrada que era oferecida à mulher, assim como as condições sociais e econômicas da época, eram os principais obstáculos para sua participação nos meios libertários. O autor incentiva uma maior participação feminina na luta anarquista, dizendo que quando isso acontece “(ela) ergue-se na primeira fila mais enérgica ainda que o homem”. Um texto bastante significativo sobre o assunto, que deve ser lido levando em consideração a cultura e o contexto social da época.
O segundo artigo foi publicado no periódico sindicalista libertário A Tribuna Operária (nome em protesto ao diário comercial A Tribuna), na cidade de Santos, conhecida na época como a Barcelona Brasileira, devida a intensa influência anarquista nas associações operárias dessa época. Escrito por uma militante chamada Iris, o texto trata da importante questão da organização dos trabalhadores, ressaltando que essa é a maneira mais eficaz para enfrentar problemas como as longas jornadas de trabalho, os baixos salários, a competição no mercado de trabalho, o desemprego, a miséria, a ignorância, entre outros males próprios do sistema capitalista.
O terceiro escrito foi publicado na primeira fase do periódico anarquista Ação Direta, no Rio de Janeiro, em 1929. A autora, Ida Fontes, durante o decorrer de todo o texto demonstra um profundo e impressionante conhecimento da ideologia anarquista, que pode levar muitas pessoas nos dias de hoje à rever certos conceitos. Comparando o individualismo anarquista com o coletivismo anarquista, um tema polêmico inclusive para os dias de hoje, Ida Fontes chega à conclusões que certamente surpreenderão muitas pessoas.
Desejamos uma boa leitura à todos/as companheiros/as, contamos que as pessoas façam comentários sobre os textos para contribuir no debate (consideramos que essa é a parte mais importante no resgate desses escritos históricos) e, informamos, que em breve vamos publicar outros textos da imprensa anarquista brasileira.
Avante com o livre debate sobre a ideologia anarquista !!!



“A Mulher e a Anarquia”
Na sociedade atual a mulher suporta a parte mais pesada dos encargos sociais.
Enquanto o homem luta e pena a fim de trazer para casa o necessário, à mulher incumbe todo o fardo dos trabalhos domésticos – que não são os menos penáveis – a isso se juntam todas as funções da maternidade e a responsabilidade de resolver um problema, as mais das vezes inextricável, gastar sem pedir fiado ou emprestado. E ainda acresce quando o salário do homem é insignificante, a necessidade de deixar o lar e procurar fora um trabalho mais ou menos remunerador.
Neste viver pungente e opressivo, um certo fanatismo se apodera dela e lhe faz aceitar com resignação a sua sorte; e se por vezes a revolta lhe sobe ao cérebro, este mercê de uma longa inação não resiste ao choque e a razão hesitante é inapta para seguir a reta linha da lógica.
Algumas vezes, contudo, heróica e sublime na sua revolta, exalta-se a sua cólera, com todos os sofrimentos, com todas as duras privações deste tanto tempo passadas, e vemo-la então erguer-se na primeira fila mais enérgica ainda que o homem.
Mas, geralmente, um grande desânimo a invade ao pensar no gigantesco esforço que é preciso tentar para demolir o edifico, cuja massa enorme a esmaga.
A essa que sabe quanto o governo da casa é dificultoso, horrorizá-la a expectativa de uma luta, cujo termo acha incerto e que, qualquer que seja o resultado, lhe parece dever agravar a sua miséria.
A sua visão, menos larga que a do homem, é de caráter imediato. Se o combate de amanhã lhe dá de causar a falta de pão em casa que lhe importa a abundância entrevista para depois de amanhã ?
O homem tem, pois, de atuar sozinho, sem o benéfico apoio, nas horas de fraqueza, de uma coragem igual no coração da sua companheira. Ainda mais, nesses momentos tem de lutar duplamente, contra si e contra a deprimente influência da sua querida amiga !
Ah, se soubesses, mulheres, que dor é a nossa quando após alguns anos e esforços para elevar a nossa alma à altura do nosso ideal, logo um nada, uma palavra destrói todo esse trabalho penosamente realizado e nos faz constatar a inanidade das nossas esperanças !
Porque é assim que amamos nós, os anarquistas.
É um despedaçar do coração para nós, ver-vos tão distantes e sentirmo-nos dissuadidos, pelo fato da vossa educação retrógrada, da ideal felicidade de uma confiança recíproca e de um comércio paralelo de idéias e de sentimentos.
Porque, na luta sem quartel, necessária para a realização da nossa comum felicidade, há de ser preciso empregar parte das nossas forças em trazer-vos a reboque e em vencer a vossa obstinação de ficar para trás ? É a política que vos aborrece ?
Mas não se trata de política; não se trata de modificar a forma do governo, de colocar este ou aquele no poder !
O nosso objetivo é mais vasto. O que nós pretendemos é a nossa felicidade, a vossa e a demolição de um edifício de preconceitos, de mentiras convencionais, de desigualdades flagrantes, de uma organização despótica e injusta que sobre vos pesa ainda mais que sobre nós e vos avilta, é a destruição da mentira que impera no lugar da verdade, é o desaparecimento desta vergonha – a prostituição, é o desenvolvimento do indivíduo na livre natureza pelo prazer de viver e de amar, é o advento da harmonia e do amor, sustentadas pela liberdade e pela confiança mútua.
E então, altiva e livre, igual ao homem, não já fêmea, mas mulher, tu serás, em toda a beleza da palavra – a sua companheira !
Queres isto ? Pois bem; sê conosco. 

Retirado do periódico anarquista “L’Avvenire” (São Paulo), 24 de Fevereiro de 1895, número 8, página 2.


 A Organização

Analisando detidamente o desenvolvimento que se vem operando em todos os ramos da atividade humana, desenvolvimento esse que só contribui em benefício de uma pequena parte, de indivíduos, convencer-nos-emos de que uma necessidade imperiosa se apresenta para que os trabalhadores procurem não obstar esse desenvolvimento, mas fazer com que ele não venha somente beneficiar uma pequena parcela dos humanos, mas sim a toda a humanidade.
O braço trabalhador diariamente está sendo eliminado, a ciência todos os dias apresenta novos processos sempre tendentes a proporcionar aos povos o modo mais fácil e menos fatigoso de obter o  necessário para o próprio sustento. Acontece, porém, que esses melhoramentos longe de vir beneficiar o povo, vem cada vez mais atirá-lo para a miséria.
O capital é quem deles se utiliza para realizar as suas especulações, promovendo a concorrência de braços que grandes e proveitosos lucros lhe traz, pois os trabalhadores reduzidos quase ao nada, sujeitam-se a todas as condições de trabalho mal remunerado e prolongado, vexames e insultos, tudo, enfim, suportam e aceitam, pois não querem morrer de fome; a desocupação e a falta de trabalho é triste, pois, traz como consequência a falta de pão para alimentar seus pequeninos filhos, a falta de teto onde abrigar a família, cuja, existência é cheia de privações de penas.
A grande maioria dos trabalhadores assistem com indiferença e impassibilidade a todo esse contínuo crescer da própria miséria, sem observar que esta todos os dias se acentua, e essa impassibilidade terá consequências bem funestas.
A continuar assim não tardará o dia em que a família trabalhadora reduzida a condição de besta de carga, nem sequer o direito de trabalhar terá, e por consequência tampouco o direito à vida.
Parecerão exagerados esses conceitos, mas assim não é, o regime capitalista dispõe de grandes elementos, que os trabalhadores cegos e ignorantes lhe entregaram sem perceber que estão entregando o punhal para as mãos do próprio algoz, para que o assassinem!!!
Ele criou uma infinidade de instituições e todos os dias inventa outras.
E os trabalhadores, ingênuos, inexperientes e tolos, para elas concorrem, dando-lhe vida, não percebendo que elas representam um instrumento de opressão nas mãos do capitalista. Um escritor já o disse, a exploração do capitalista está baseada na ignorância do proletariado, e é bem verdade; é na cegueira e no negro obscurantismo que impera entre os trabalhadores, que o abutre capitalista assenta o pedestal, e ele está convencido de que, enquanto os trabalhadores forem ignorantes, despreocupadamente poderá continuar no conforto e no bem estar, manda semear essa ignorância a mão cheia pelas instituições, tarefa essa que se torna muito fácil, pois têm sempre boa aceitação por parte dos trabalhadores.
Há um meio, há uma arma poderosa que esse triste futuro não se realize: meio e essa arma é a organização. Os trabalhadores organizando-se, reunindo as próprias forças podem se opor a todas as injustiças que contra eles se cometem: organizando-se, poderá ir obtendo todas as melhoras que as suas condições de vida exijam, como seja: aumento de salário e redução das horas de trabalho, que é incontestavelmente a conquista mais lógica que o proletariado possa fazer, pois ela, além de vir eliminar a concorrência de braços, assegura também uma vida mais humana pelo trabalho prolongado.
Organizando-se, enfim, os trabalhadores terão os mais benéficos e proveitosos resultados, pois no seio da organização se adquirem energia e altivez, e espírito da luta e da solidariedade, todas as boas qualidades, enfim, do homem perfeito consciente e preparado a lutar, para saber viver numa sociedade.
É necessário, pois, fazer tudo para a organização; é preciso difundir a sua necessidade, fazendo vibrar na alma do operariado cego, passivo e resignado o instinto associativo.
Não esmoreçamos neste sentido, todos nós que temos esses conhecimentos; dediquemo-nos a essa obra com constância e tenacidade, pois só assim não se apresentará um porvir para o proletariado, mas, ao contrario, um porvir de luz, de bem e de amor.

Por Irís, retirado do períódico libertário "Tribuna Operária" (Santos/SP), em 07/08/1909, número especial, p. 1.

   

“O Que É Preciso Dizer”

É preciso muita má vontade para afirmar que os anarquistas individualistas desejam ver os sindicatos fechados, os operários desorganizados, desunidos, entregues ao despotismo da burguesia. E digo que é preciso má vontade, porque não há ninguém que não reconheça o valor da solidariedade humana, a qual, sendo uma necessidade social, é também uma necessidade moral e satisfazendo-a o homem atende ao natural desejo de ser útil aos seus semelhantes, de prestar-se para alguma coisa.
Que os trabalhadores se unam e procurem com isso lutar contra a prepotência do patronato e coisa cuja conveniência ninguém discute. E nunca o individualista foi adverso a esse sistema de luta, como se pretende. Contra o que se insurge, o que procura defender-se, é contra a absorção da sua personalidade pelo ambiente trabalhista.         
Às vezes, os interesses da coletividade vão de encontro as convicções ideológicas do indivíduo. Colocado nesta conjuntura, o individualista sacrificará, sem hesitar esses interesses, conservará imaculada a integridade dos seus princípios, o coletivista pelo contrário, porá os interesses da coletividade, acima dos seus ideais. Este um dos pontos principais, o mais característico talvez, em que assenta a diferenciação de ambas tendências.
Aqueles que afirmam que o sindicalismo não tem a faculdade de absorver elementos nossos em detrimentos dos ideais, deveriam considerar melhor, os fatos de todos os dias. Quando no cérebro do anarquista se forma a idéia fixa de arregimentar massas, quando sente a necessidade de reunir um grande número de trabalhadores, a preocupação de conseguir adeptos o torna cego a tudo o mais. Ele vai pouco a pouco, insensivelmente, cedendo parte das suas convicções e da sua firmeza de propagandista ácrata. Primeiro, é para atrair associados para a organização desejada, depois para conservá-los, mais tarde para não os desgostar, e afinal, a coletividade inconsciente anula a unidade consciente, domina-a, deixando-a reduzida a uma condição deplorável.
Poderíamos citar inúmeros casos de anarquistas ou coisa que o valha, que tem impedido por toda forma a propaganda anarquista dentro do seu sindicato, por julgarem que este ficaria prejudicado com isso.
Estas coisas e outras semelhantes, fazem-nas aqueles que se deixam empolgar pela teoria que concede valor máximo ao número.
E os que não pensam como eles, os que pretendem que o ideal seja colocado acima de tudo, os que querem os sindicatos como escolas onde os trabalhadores adquiram noções que os tornem homens de proveito, conscientes do próprio valor e dignidade, e não como túmulos de idealismos nos que se enterrem vontades e caracteres, a esses se lhes move uma guerra absurda e se os combate sem lhes estudar os propósitos.
Já tive ocasião de me referir a diferença que existe, na prática, entre as duas correntes em evidencia, reduzindo a questão a uma simples operação aritmética.
Dizem os coletivistas: “a vários zeros reunidos basta pôr uma unidade a esquerda, isto é, a frente, para obter um milhão”. Dizem então os individualistas: “de acordo; mas no dia em que essa unidade faltar, o milhão tornará zero, até que entenda de aparecer outra unidade. E de acordo com o que essa unidade quiser o milhão se movimentará para um lado ou para outro, para a boa obra ou para a deletéria, tanto faz.”
Pensamos então: se em vez de um aglomerado de zeros, tivéssemos um conjunto de unidades o produto total aumentaria consideravelmente, teríamos no caso 1.111.111. E aqueles que teimam em ligar importância capital ao número aceitariam a evidencia de um lucro de 111.111 que não é quantia para desprezar.    
Mas não é isso o mais importante: o que importa saber é que no dia em que faltasse uma dessas unidades, o conjunto diminuiria, mas não deixava de existir. E mais ainda: que sendo 1.111.111 de cérebros a pensar em vez de um único, e havendo outras tantas vontades conscientes em ação em vez de um só, a obra conjunta deveria ser, forçosamente superior.   
Essa preocupação em desejar uma multidão anônima para dirigir, uma grande massa, sem vontade própria para orientar, é, perdoem-me a franqueza, uma reminiscência do espírito autoritário que herdamos dos nossos avôs, os conquistadores; é o ditador que dormita em nosso subconsciente e que despertará ao primeiro toque de rebate.
Nem sempre nos apercebemos desta verdade e atravessamos a vida a embalar em nosso seio uma víbora que morderá a consciência ao primeiro descuido, tornando-nos inimigos dos nossos semelhantes, perpetuadores de um estado de coisas que deve ser destruído.       
Não vale o argumento que já me foi apresentado, de que o sindicato “reprodução da humanidade em ponto pequeno” é uma orquestra, na qual cada músico tem a sua parte, mas a que é indispensável, o mestre para dirigir a harmonia do conjunto. 
A orquestra valerá sempre pelo valor individual de cada músico e se estes forem detestáveis o maestro não conseguirá nunca obter a harmonia desejável.
O maestro, a meu ver, é uma entidade de valor, sim, mas de valor igual ao de cada músico. O seu papel de harmonizar não pode de maneira nenhuma, ser considerado superior ao de interpretar. Mesmo porque, sem maestros e ainda sem orquestra, a Música não deixaria de existir. É até nas interpretações individuais que o espírito sente se arrebatar em elevados transportes, mergulhando no resplendor da verdadeira Arte.
Porque não dar a cada coisa e cada ser o seu justo valor? Porque elevar alguns aos píncaros de uma exaltação perigosa, e reduzir os mais a uma anulação deprimente?
Porque ao faltar o maestro, a orquestra deverá dissolver-se e cada músico arrumar para o canto o seu instrumento? Porque não poderá cada músico ser capaz de tornar-se um maestro quando a ocasião o reclamar?        
É isto que se pretende e que a cegueira de adversários que nos combatem sem querer deter-se ante os nossos propósitos, não deixa compreender, que cada individuo trabalhe com afã educando a sua mentalidade e a sua vontade para fazer de sua pessoa uma unidade consciente uma individualidade de valor. É que, dentro ou fora do sindicato, aonde quer que se encontre, mantenha de pé essa individualidade, a independência de caráter, a sua vontade regida apenas pelo raciocínio. Ninguém poderá contestar que uma coletividade composta de indivíduos desse proceder, seria uma coletividade superior.
Podemos citar fatos concretos: enquanto certos sindicatos formados por uma multidão amorfa de seres sem vontade própria e que não sabem o que tem a fazer porque não sabem o querem, aparecem e desaparecem como meteoros, dando luz fugaz e nem sempre brilhante e tantos outros que mudam de cor, de orientação, ao primeiro revés, nós vemos que naquelas agremiações aonde os associados são pessoas que aprenderam a pensar e agir por conta própria, aonde cada membro é uma vontade em vibração, acontece justamente o contrário. A União dos Operários em Construção Civil, por exemplo, vem mantendo através de vários anos uma norma de conduta que prova quanto diferem os conjuntos de homens mais ou menos conhecedores do que desejam, do que querem, dos que são formados apenas por um aglomerado de inconscientes sem personalidade.
Essa união tem resistido aos maiores embates da reação, tem visto os seus mais ativos militantes deportados, perseguidos, assassinados até. E os claros deixados por esses militantes tem sido preenchidos imediatamente, a entidade social tem continuado sempre a manter a atitude serena e firme de quem sabe para onde vai e que nada a fará desviar do caminho traçado.
Nós a temos visto ressurgir após as represálias, reduzida, com um número pequeno de sócios, mas sempre com relativa facilidade, certa do próprio valor e sempre moralmente forte. Por quê? Já o disse: porque os seus associados são em sua maioria indivíduos que não mantém, dentro da associação a mentalidade de ovelhas de rebanho a espera de um pastor que as dirija. Cada qual por si mesmo procura criar um “eu” muito seu, independente, que agirá dentro ou fora da organização operária, conforme as necessidades da luta, mas obedecendo sempre as concepções próprias, sempre manifestando o valor da própria personalidade.
E, felizmente, não é essa União a única associação operária que assim procede. Há mais algumas ainda, para gáudio dos que sonham com a verdadeira emancipação dos trabalhadores. 
Que os políticos e demais pescadores de águas turvas, considerem o valor das agremiações operárias pelo número de sócios, e o valor da mentalidade obreira pelo número de agremiações, sejam elas quais foram, explica-se. Mas que os anarquistas pensem da mesma forma, não se explica muito.
Para o anarquista, o sindicato poderá ser um meio de luta, mas não é o único meio, nem este o deve absorver.
Quando a ação dos anarquistas nos sindicatos não se possa fazer sentir na propagação dos seus ideais, única mira que os pode ai levar, é razoável que eles se afastem e vão procurar outro campo apropriado.
Sindicalismo e anarquismo podem andar unidos e assim deveriam andar sempre, para bem dos trabalhadores. Mas é preciso reconhecer que não são a mesma coisa. E quando o anarquista tiver que optar por um deles, seria lógico que optasse pelo anarquismo, não lhes parece?
Reunião de valores? Solidariedade entre pessoas afins para a conquista de um ideal comum? De pleno acordo. Mas arregimentação de massas inconscientes, formação de pobres rebanhos que não pensam nem sentem senão através de um pastor, seja este embora o mais bem intencionado dos anarquistas, não, tenham paciência, isso não é obra anárquica!
                 
Por Ida Fontes, retirado do periódico anarquista “Ação Direta” (Rio de Janeiro), 10 de Janeiro de 1929, número 3, página 2.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Luta de Classes Ou Ódio Entre As Classes ?

Esse texto pouco conhecido do ilustre anarquista italiano Errico Malatesta (1853-1932), aborda sua visão sobre a questão operária e a luta de classes, diferenciando essa do ódio entre as classes sociais. Esse artigo causou muita polêmica na época em que foi escrito e, sendo ainda hoje, uma questão que causa muita discussão nos meios libertários, talvez ajude no debate atual sobre esse assunto. Leiam & Reflitam & Comentem !!!

"Povo & Proletariado – Luta de classes ou ódio entre as classes?"


 ERRICO MALATESTA

Eu pronunciei, na presença dos juízes de Milão, algumas palavras sobre a luta de classes e sobre o proletariado, palavras que tiveram a virtude de suscitar críticas e exclamações. Acho conveniente dizer mais alguma coisa sobre o assunto.
No tribunal protestei indignadamente contra a acusação que me faziam de “eu ter incitado o povo ao ódio”. Expliquei, então como na propaganda das minhas idéias tinha procurado sempre demonstrar que os males sociais não dependem da malvadez deste ou daquele patrão, deste ou daquele governante, mas sim da instituição do próprio patronato e do governo, e que, portanto, não se podem remediar os males mudando as pessoas dos dominadores – o que é necessário é destruir o principio da dominação do homem pelo homem. Afirmei também que sempre tinha insistido no fato de que, pessoalmente, os proletários não são melhores do que os burgueses. E a prova é que quando por qualquer circunstância um operário consegue atingir uma posição de riqueza e de mando, se conduz geralmente como um burguês ordinário e dos piores.
Essas declarações foram adulteradas, confundidas e publicadas na imprensa burguesa; e compreende-se muito bem que assim tinha sucedido. A imprensa subvencionada para defender os interesses da política e dos tubarões tem por dever de ofício de esconder a verdadeira natureza do anarquismo, dando credito à lenda do anarquismo odiento e destruidor. E faz isto por exigências do ofício. Devemos convir, porém, que amiúde procede assim, de boa fé, por pura e simples ignorância. Desde que o jornalismo, que foi um sacerdócio, passou à condição de indústria e de ofício, os jornalistas não só perderam o senso moral como também a honestidade intelectual, que consiste em não se falar daquilo que não se sabe.
Deixemos, porém, os venais no lodo e falemos daqueles que, embora divirjam de nós nas idéias e, freqüentemente, só no modo de exprimi-las, são os nossos amigos porque caminham para o mesmo fim que nós caminhamos.
Nestes indivíduos a estupefação é completamente injustificada até ao ponto, que não me repugna acreditar, de julgá-la afetada. Eles não podem ignorar que eu venho dizendo e escrevendo estas coisas há cinqüenta anos; e que, comigo e antes de mim, as disseram e repetiram centenas e milhares de anarquistas.
Mas vamos ao desacordo. Existem os ‘proletários’, isto é, os operários que julgam que pelo fato de terem calos nas mãos, isso significa uma divina infusão de todos os méritos e de todas as virtudes, e que protestam, se alguém tiver o atrevimento de falar do povo e de humanidade, esquecendo-se de jurar sobre o sagrado nome do proletariado.
É verdade que a história fez do proletariado o instrumento principal da próxima transformação social. Assim, aqueles que lutam pelo advento duma sociedade na qual todos seres humanos sejam livres e tenham assegurados os meios para exercer a liberdade, devem apoiar-se principalmente no proletariado.
Visto que o equiparamento das riquezas naturais e do capital, produzidos pelo trabalho das gerações passadas e presentes, é hoje a causa principal da sujeição das massas e de todos os males sociais, é natural que, aqueles que nada possuem, sejam os que, em conseqüência de sua miséria, se sintam mais direta e evidentemente interessados em que se ponham em comum os meios de produção, constituindo assim os agentes naturais da exploração. É por isso que dirigimos a nossa propaganda muito especialmente aos proletários e aqueles que, pelas condições em que se encontram, não tem possibilidades de chegar por si próprios – por meio da reflexão e do estudo – a conceber um ideal superior. Mas, para isto, não é necessário fazer do pobre um fetiche, pelo simples fato dele ser pobre, nem alentar nele a crença de que é duma essência superior, nem que, por uma condição que não é certamente fruto do seu mérito nem da sua vontade, tenha conquistado o direito de fazer aos outros o mal que os outros lhe tenham feito. A tirania das mãos calejadas (que, na prática, é sempre a tirania de uns poucos que, se alguma vez tiveram calos, os deixaram desaparecer) não será menos dura, menos ignominiosa, menos fecunda em males duradouros, do que a tirania das mãos enluvadas. O que ela será é menos ilustrada e mais dura: eis tudo.
A miséria não seria tão horrível como é, se além dos males materiais e da degradação física, não produzisse também, ao prolongar-se de geração em geração o embrutecimento moral. E os pobres têm vícios distintos que não são melhores que os que o poder e a riqueza ocasionam nas classes privilegiadas.
Se a burguesia produz os Giolitti, os Graziani e toda a cumprida série de tiranos da humanidade, desde os grandes conquistadores até os pequenos patrões ambiciosos e usuários, produz também os Reclus, os Cafiero, os Kropotkine e tantos outros que em todas as épocas, tem sacrificado os seus privilégios de classe em homenagem a um ideal. Se o proletariado tem dado e continua a dar tantos heróis e tantos mártires à causa da redenção humana, dá também os guardas brancos, os assassinos, os traidores aos próprios irmãos sem os quais a tirania burguesa não poderia durar um único dia.
Como, pois, se pode elevar o ódio a princípio de justiça, a iluminado sentimento de reivindicação, quando é evidente que o mal está em toda a parte e depende de causas alheias a vontade e a responsabilidade individual?
Faz-se quanta luta de classes, se quiser, se por luta de classe se entende a luta dos exploradores a fim de abolir a exploração. Ela é um meio de elevação moral e material e a principal força revolucionária com que hoje se pode contar. Mas propagandear o ódio não, porque do ódio não podem brotar o amor e a justiça. Do ódio nascem a vingança, o desejo de imperar sobre o inimigo, a necessidade de consolidar a própria superioridade. Com o ódio se obtém um triunfo, podem-se construir novos governos, mas não se pode fundar a anarquia.
Compreendemos bem o ódio em tantos desgraçados que a sociedade tortura, tubercolizando-lhes os corpos e destruindo-lhes os afetos. Logo, porém, que o inferno em que vivem seja iluminado por um ideal, desaparece do seu íntimo o ódio, para dar lugar ao ardente desejo de lutar pelo bem de todos.
É por isso que entre nós não há verdadeiros odientos: há apenas retóricos do ódio. E mesmo estes indivíduos procedem como o poeta que, sendo um pai de família exemplar e pacífico, canta o ódio e prega a destruição, porque encontra nisso a emoção para fazer versos bons... Ou maus. Falam do ódio, é certo; mas o seu ódio é feito de amor.
Eu amo-os porque os compreendo. Ainda que falem mal de mim.
 
Por Errico Malatesta, retirado do periódico anarquista ‘A Plebe’ (São Paulo), 27 de maio de 1922, número 182, página 2.

Sobre as eleições

Publicamos hoje um artigo clássico do anarquista espanhol Manuel Peres Fernandez, que além de ter atuado na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), também militou durante muitos anos no Brasil (Rio de Janeiro), participando do coletivo que produziu o periódico ‘Ação Direta’ (1946-1958). O tema desse texto aborda a questão das eleições, muito propicio para esse momento que estamos vivendo. Leiam & Reflitam & Comentem !!!

TRABALHADOR

Se ainda confias no voto para dar solução aos teus problemas, escuta um momento a palavra veemente da História

MANOEL PERES

            Mais uma vez, os políticos de todas as tendências, com a sua enorme bagagem cheia de promessas demagógicas, batem à porta da tua boa fé para solicitar-te o voto que há de conduzi-los aos cargos culminantes do Estado, nos quais, longe de lutarem pelas tuas justas reivindicações, defenderão os interesses supremos do capitalismo.
            E, mais uma vez, amigo trabalhador, sem quereres compreender a força formidável da tua capacidade criadora e construtiva, acudirás à urna e anularás a tua própria personalidade, ao confiares a outro homem a solução dos teus problemas angustiosos.
           
Escute produtor:

            É, tu que, com gigantesco impulso, moves a alavanca potente do progresso humano. És tu que, construindo cidades e palácios maravilhosos, vives num miserável barracão do morro ou no triste quartinho de uma casa de cômodos vendo os teus filhinhos definhando lentamente com o organismo minado pelo vírus terrível da tuberculose... És tu que desces ao fundo das minas para arrancar as entranhas da terra os ricos minerais que, transformados em máquinas e instrumentos de trabalho, contribuem para o desenvolvimento das indústrias, das ciências, das artes e de todas as atividades indispensáveis à existência do homem. E és tu, finalmente, quem, como suprema ironia, colocando pedra sobre pedra, constrói estatuas gigantescas simbolizando a liberdade, como a que existe à entrada do porto de New York, o que não impede que continues submetido à mais terrível escravidão.       
           
            Como é grande o Brasil

            Muitos trabalhadores não querem estudar os seus próprios problemas, confiando ingenuamente nos líderes, que afirmam demagogicamente: “Eu pensarei por ti e defenderei os teus interesses...” e essa confiança leva-os ao extremo de não acompanharem a evolução humana e ignoram as próprias possibilidades do seu país de origem.
            O Brasil, amigo trabalhador, é um dos maiores países do mundo: a sua extensão territorial é de 8.514.500 quilômetros quadrados, ou seja, maior que toda a Europa excetuando a Rússia! Para compreenderes a sua grandeza, basta saber que a Espanha, com os seus 504.000 quilômetros quadrados, cabe inteira no Estado de São Paulo...
            Pois bem! O continente europeu, muito menor que o Brasil, com todos os vícios e injustiças do regime capitalista, produz o necessário para alimentar uma população de mais de 500 milhões de habitantes e o Brasil, muito maior que toda Europa reunida, tem pouco mais de 50 milhões de habitantes que, ou comem mal, ou morrem lentamente de fome!
            Temos um litoral imenso, com pesca rica e abundante, rios formidáveis como o Amazonas e o Paraíba, minas de ferro, carvão e outros minerais, jazidas petrolíferas, cachoeiras possantíssimas para fornecerem energia elétrica às nossas indústrias e, finalmente, terras fertilíssimas com variedade de climas e em condições – se forem cultivadas – de produzirem o necessário para alimentar com abundância uma população dez vezes superior à que existe em nosso país! E morremos de fome...!

            A Política não resolve esse problema

            Não, amigo trabalhador, a política não soluciona esse problema angustioso, como não conseguiu solucioná-lo em nenhum país do mundo, e prova disto é que a humanidade vive em guerra permanente, guerra provocada pelo capitalismo para afogar em sangue o grito angustioso dos que morrem lentamente vítimas da injustiça social.
            Há 150 anos, com a derrocada do Feudalismo e a Promulgação dos Direitos do Homem, surgiu no mundo o chamado regime capitalista, ou seja, a chamada organização política dos povos. Se é certo que ao homem foi concedida a liberdade política dando-lhe o direito de escolher ele mesmo os seus representantes, não é menos certo que ele continuou submetido à escravidão econômica, já que o Estado que lhe concedia o direito de votar não lhe dava, de igual forma, os elementos indispensáveis para cobrir as necessidades do lar.
            Durante esses 150 anos, a luta entre o capital e o trabalho foi intensa em todo o mundo, e grandes as tragédias provocadas pela ambição dos dominadores e desespero da classe escravizada.
            Nos períodos eleitorais, todos prometiam uma solução justa para os problemas humanos; os líderes proletários aceitavam a luta política e abandonavam os sindicatos para defenderem no parlamento os interesses de seus irmãos de classe. Triste ilusão. Mesmo sendo honrados, esses trabalhadores ou falhavam e retornavam aos seus sindicatos ou eram absorvidos pelo meio ambiente. O mal não estava nos homens, e sim no sistema social, na deficiente organização econômica do mundo.
            E nessa luta pela conquista do poder político, o proletariado internacional viu como desapareciam, devorados pela ambição e pelo egoísmo de uma existência mais cômoda e feliz, mesmo a custa de vergonhas e claudicações, homens que, nos meios operários eram considerados como valores íntegros e positivos.
            E assim fugiram para sempre absorvidos pelo capitalismo, líderes que na praça pública, pregavam a Revolução Social como única solução para conquistar a felicidade humana entre eles, Clemenceau, Aristide Briand, Pierre Laval, fuzilado como traidor após a libertação da França e muitos outros, como o famoso Alejandro Lerroux na Espanha, o ex-revolucionário Mussolini na Itália e os MacDonald na Inglaterra.
            Os povos não querem, compreender que todos os políticos são iguais, e que, por melhores que sejam as intenções dos candidatos, eles nada podem fazer em seu benefício, porque o mal está na organização social, no próprio Estado, na exploração do homem pelo homem, e na maior de todas as injustiças, a Propriedade Privada.

            A Solução Anarquista

            Mentem, ou desconhecem profundamente as correntes ideológicas, os que afirmam que a Anarquia representa a desordem, o caos e a desorganização social. São ingênuos também os que dizem que este ideal é impraticável porque os povos carecem de educação e cultura para viverem num regime de completa liberdade.
            Se aguardarmos que a humanidade seja na sua totalidade anarquista e tenha cultura suficiente para viver livremente, a escravidão do mundo será permanente porque o capitalismo, bastante inteligente, terá, auxiliado pelo clero, o maior cuidado em impedir essa educação, embrutecendo o cérebro dos trabalhadores.
            O anarquismo não destrói, constrói, quer uma organização social que tenha como base fundamental o trabalho ou uma Sociedade de Produtores Livres. Que isso não é uma doutrina de louco, o prova o fato de terem lutado, propagado e defendido o anarquismo homens de indiscutível valor nas ciências, nas artes, na literatura, etc..
            Anarquistas foram Eliseu Reclus, um dos maiores geógrafos do mundo, Pedro Kropotkin, príncipe e escritor russo, Rodolfo Rocker, uma das maiores mentalidades da Alemanha, Romain Rolland, Miguel Bakunin Luiza Michel, Enrique Malatesta, Sebastião Faure, Pietro Gori, Anselmo Lorenso, Ricardo Mella, Federico Urales, Luiz Fabri, muito outros, verdadeiro orgulho para as ciências e progresso humanos.

            O caso da Espanha

            O proletariado espanhol estava agrupado em sindicatos que atuavam a margem de toda influência política e eram verdadeiros centro de educação social. Nele, os trabalhadores analisavam os seus problemas, entre estes, as formas de organizar a produção, a distribuição e o consumo pensando na transformação social, que o próprio capitalismo reconhece ser inevitável.
            Essa capacidade revolucionária foi a causa fundamental de que o fatídico Franco não triunfasse rapidamente nas importantes regiões da Catalunha, Levante e Castilla, onde os trabalhadores lutaram com verdadeiro heroísmo.   

            Valor construtivo

            Ao surgir a sublevação franquista, a maioria dos capitalistas da Catalunha, complicados no movimento fugiram para o exterior abandonando indústrias e fábricas.
            Um proletariado inculto, educado no ambiente político e sem noção exata dos seus problemas teria sucumbido facilmente vendo descontrolada a produção. Tal não aconteceu na Catalunha onde tudo estava previsto.
            As grandes usinas metalúrgicas, entre elas a Hispano-Suíça, com mais de 800 operários, nomearam imediatamente uma comissão de controle e produção que assumiu a direção das mesmas e foi tão formidável a sua atuação e tão consciente a obra dos trabalhadores que a produção aumentou 45 por cento, o que tornou possível a resistência daquele povo heróico durante três anos.
            Da mesma forma que as indústrias, os transportes e as ferrovias funcionaram normalmente sob o controle direto dos sindicatos, sem que ao povo em armas faltasse o necessário para cobrir as suas necessidades durante a luta contra as hordas fascistas.
            O campo foi coletivizado chegando a produção agrícola ao máximo do seu desenvolvimento, o que demonstra, de forma categórica, que o povo tem capacidade suficiente para reger os seus próprios destinos. Se isso foi possível na Espanha em luta titânica contra o fascismo internacional, mais fácil será quando os povos decidirem libertar-se, em união fraternal, do jugo capitalista.
_____
           
            Agora Amigo Trabalhador

            Analisa esses problemas com calma e atenção: medita nas lições da história, no exemplo dos camaradas da Espanha e pensa que, mesmo votando, não conseguirás emancipar-te, porque como afirmavam na Primeira Internacional: “A Emancipação dos Trabalhadores há de ser Obra dos Próprios Trabalhadores.”

Por Manoel Peres, retirado do periódico anarquista ‘Ação Direta’ (Rio de Janeiro), 30 de dezembro de 1946, número 28, ano1, página 1.     

domingo, 5 de agosto de 2012

Mais um clássico...


Mais um texto retirado das páginas da imprensa anarquista brasileira. Desta vez as palavras são de Liev  Tolstoi, que ficou conhecido pelos seus escritos literários, destacando "Guerra e Paz", e entre os anarquistas foi denominado como anarquista cristão. Visando trazer textos que estão próximos de nossas propostas, objetivamos aqui também apresentar um texto de militância de Tolstoi, ou seja, escritos além de sua escrita literária, é como estamos em época de eleições por que não tratar deste tema? Boa Leitura!


Governos e Bandidos


Acontece com os governos o mesmo que com as quadrilhas de bandoleiros: a diferença é que os bandoleiros atacam especialmente os ricos, enquanto os governos abusam, sobretudo, dos pobres e protegem os ricos que os ajudam a praticar os seus crimes.
O bandido da Calábria que impõe um tributo aos que querem livrar-se dos seus assaltos, ao menos arrisca a vida. Os governos não arriscam nada e tudo põem em execução com a mentira permanente e o engano diário. O bandido não forma a sua quadrilha violentamente; mas os governos recrutam os seus exércitos à viva força.
Para o bandido, todos que lhe pagam um tributo desfrutam das mesmas garantias de segurança, para o Estado, os que se aproveitam da força e ajudam o engano,não só se tornam mais protegidos, mas até recompensados, os mais garantidos, uma guarda constante os rodeiam: são os imperadores, os reis, os presidentes, cada um dos quais recebe a maior parte das riquezas que se repartem, arrancadas ao contribuinte, logo, segundo a maior ou menor participação que tenham nos crimes do governo, são garantidos e recompensados os generais, ministros, governadores e assim sucessivamente até os mais modestos policiais. Os menos garantidos são os que recebem menores ordenados.
Os que permanecem alheios as manobras governamentais, os que se negam ao pagamento dos impostos ou ao serviço militar são severamente castigados, o mesmo fazem os bandidos.
O bandido não perverte premeditadamente as suas vítimas, mas os governos para conseguirem os seus propósitos, entregam à depravação gerações inteiras de crianças e adultos, ensinando-lhes doutrinas mentirosas de religião e patriotismo.
Os mais cruéis dos bandidos – Stenka, Racine, Cartouche, Mandrin – pela sua crueldade implacável e refinada, sem recordar aqui os tiranos célebres como Ivan, o Terrível, Luis XI, Izabel, etc..., não podem comparar-se aos governos contemporâneos, constitucionais e liberais, com as suas prisões celulares, os seus batalhões disciplinados, as suas carnificinas, as quais dão o nome de guerras.
Os governos, como as igrejas não devem ser tratados senão com veneração ou com desprezo.
O tempo da veneração vai passando para os governos, apesar de toda hipocrisia que empregam para conservar o seu prestígio.
A hora chega e os homens compreenderão finalmente que os governos são instituições mais que inúteis, daninhas e imorais, as quais nenhuma pessoa honrada deve prestar o seu concurso, nem aceitar os seus favores.

Por Liev Tolstói, retirado do periódico anarquista ‘A Terra Livre’ (São Paulo), 1º de Maio de 1906, número 8, página 3, & também do semanário anarquista, ‘A Vanguarda’ (São Paulo), 23 de Junho de 1921, número 45, página 4.


sábado, 14 de julho de 2012

Retornando...


Após longo período sem atualização, retomamos a ativar o nosso blog. Reiniciamos com a proposta de publicar (ou republicar) textos ácratas extraídos de antigos jornais anarquistas publicados no Brasil. Textos retirados de jornais como "A Terra Livre", "A Guerra Social", "A Plebe", "A Lanterna", "Ação Direta", entre outros, visamos com isso divulgar as ideias que os militantes anarquistas antepassados acreditavam e divulgavam, suas propostas, denúncias e doutrinas. Iniciamos com artigos de militantes clássicos como Kropotkin, Faure, Proudhon e Reclus. Além de autores clássicos, visamos também publicar textos de militantes libertários que atuaram em território brasileiro. Segue os textos: boa leitura e reflexão !

                                                                            “A Ordem”



Os que acusam a anarquia de ser a negação da ordem, não falam da harmonia do futuro; falam da ordem como ela é concebida na sociedade atual.
Atualmente, a ordem – o que eles entendem por ordem – são os nove décimos da humanidade trabalhando para procurar o luxo, os gozos, a satisfação das paixões mais execráveis, para um punhado de mandriões.
A ordem é a privação para estes nove décimos, de tudo que é a condição necessária de uma vida higiênica, de um desenvolvimento das faculdades intelectuais. Reduzir nove décimos da humanidade a um estado de bestas de carga, vivendo dia a dia, sem nunca se atrever a pensar nos gozos dados ao homem pelo estudo das ciências, pela criação artística – eis a ordem.
A ordem é a fome e a miséria tornadas em estado normal da sociedade. É o aldeão irlandês morrendo de fome; é o aldeão dum terço da Rússia morrendo de difteria, de tifo, de penúria, no meio dos montões de cereais que vão para o estrangeiro. É o povo da Itália deixando o seu campo luxuriante, para vaguear pela Europa, procurando um buraco onde vegete na miséria. É a terra roubada ao camponês, para criação de gado, que servirá para alimentar os ricos; é a terra deixada inculta, de preferência a ser restituída para aquele que não pede mais do que cultivá-la.
A ordem é a mulher que se vende para dar alimento aos filhos, é a criança reduzida a ser encerrada numa fábrica, ou a morrer de inanição, é o operário reduzido ao estado de máquina.
É o fantasma do operário revoltado às portas dos ricos, o fantasma do povo revoltado às portas dos governantes.
A ordem é a minoria ínfima, subida às cadeiras governamentais, que se impõe por esta razão à maioria e que educa os filhos para exercerem mais tarde as mesmas funções, a fim de manter os mesmos privilégios, pela astúcia, pela corrupção, pela força, pelo morticínio.
A ordem é a guerra constante do homem ao homem, de ofício à ofício, de classe à classe, de nação à nação.
É o canhão que não cessa de roncar na Europa, é a devastação dos campos, o sacrifício de gerações inteiras nos campos de batalha, a destruição em um ano de riquezas acumuladas em séculos de trabalho rude.
A ordem é a servidão, o pensamento acorrentado, o envilecimento da raça humana, mantido pelo ferro e pelo chicote. É a morte repentina, pelo grisu, de centenas de mineiros despedaçados ou enterrados todos os anos pela cobiça dos patrões, e metralhados, desde que se atrevam a queixar-se.
A ordem, enfim, é o afogamento em sangue da Comuna de Paris. É a morte de trinta e cinco mil homens, mulheres e crianças, maltratados, enterrados com cal viva nas ruas de Paris.
É o destino da mocidade russa, nas prisões, enterrada no gelo da Sibéria e onde os melhores, os mais puros, os mais dedicados, morrem enforcados.
Eis a ordem.

Piotr Kropotkin

Retirado do periódico anarquista ‘A Terra Livre’ (São Paulo), 12 de Abril de 1906, número 7, página 1, & também do ‘Boletim da Federação Operária do Estado Rio de Janeiro’, Setembro de 1921, número 7, página 3. Publicado originalmente no livro ‘Palavras De Um Revoltado’ (‘Paroles D’Un Révolté’), 1885.


O que nós queremos



Milhões de seres humanos trabalham dez ou doze horas diárias, em odiosas condições em troca de um salário insuficiente.
Milhões de velhos que, durante uns vinte e cinco, trinta e quarenta anos laboriosamente têm formado a riqueza pública e edificado fortunas particulares, estendem as mãos calosas e descarnadas aos transeuntes, ou solicitam a sua entrada para os asilos.      
Milhões de crianças encantadoras e inocentes que precisam do alimento e da cultura indispensáveis.
Milhões de mulheres belas feitas para provocar e gozar o amor procuram no tráfico vergonhoso da sua carne o pão que lhes é necessário.
Milhões de seres vigorosos e belos em vão procuram trabalho e, sem o encontrar, morrem na miséria.
Milhões de jovens são arrancados ao campo, à oficina, à família e aos seus amores, na previsão de matanças incompreensíveis e criminosas.
Milhões de desgraçados aquém a miséria, a ignorância e a opressão forçam fatalmente a infringir a lei feita contra eles gemem nos cárceres e nos presídios.
Toda a pessoa inteligente e de coração deve querer que isto termine.
Intrigantes e ambiciosos, investidos de um mandato pela candidez popular, farsantes e imbecis revestidos de uma função pela complacência governamental, saqueiam, as mãos cheias e sujas, o tesouro público alimentado pelos trabalhadores.
Os ministros de um Deus ridículo apóiam sobre o abandono dos dogmas e a metafísica religiosa, o domínio de uma classe e os privilégios que a acompanham.
Na sua ignorância e no seu hábito de servidão, as multidões aclamam os que as esmagam e exploram; inclinam-se respeitosas ante os grandes que as desprezam ou as adulam e seguem passivamente os conselhos dos anestesiadores e dos que pregam a resignação.
Todos os espíritos emancipados e todos os corações generosos desejam que isto tenha um fim.
Viver, ser ditosos, ser livres... Eis aqui o que nós queremos.
Gozar o bem estar físico assegurado por uma alimentação sã e abundante, boa roupa e uma habitação confortável.
Cultivar a nossa inteligência, desenvolver os nossos conhecimentos, enriquecer o nosso cérebro com novas verdades, regozijar os nossos olhos na contemplação das grandes obras de arte e da natureza, deliciar os nossos ouvidos com o encanto das puras harmonias, estudar com espírito independente os problemas da vida, passear livremente a nossa curiosidade através do mundo das realidades e das observações, pensar o que nos inspira a nossa razão ilustrada e confiar a nossa intrépida língua a expressão sincera do pensamento.                    
Eis aqui o que nós queremos!
E queremos também fundar o mais breve possível um meio social favorável ao desenvolvimento integral da personalidade humana, pelo livre exercício das forças que em nós se agitam e das paixões que nos movem, pelo desenvolvimento moral das nossas afinidades, pela nobre irradiação das nossas simpatias.
É necessário pedir à vida todas as alegrias que ela contém.
Eu sei bem que querer e proclamar isto é expormo-nos a ser tratados como malfeitores.
Que importa!
Propagadores voluntários de uma ideia justa e bela consideramos sem desfalecimentos as consequências da batalha, sendo para nós mais penoso ficar inativos no seio da peleja que correr os riscos próprios da luta.
Se é ser malfeitor querer o fim da miséria, da ignorância e das guerras; se é ser malfeitor preparar o advento de uma sociedade de concórdia, de saber, de abundância e de harmonia, nós somos malfeitores, aceitamos o epíteto e reivindicamo-lo com orgulhosa dignidade.
Abandonem os adversários a esperança de nos desarmar; não somos daqueles a quem se intimida nem a quem se corrompe.
O espírito de independência desenvolve-se e fortifica-se no seio das novas gerações; um sopro de emancipação começa a dar vida a este deserto. O escravo quer conquistar o seu lugar de homem livre. Certamente queremos ser ditosos, mas, pois que é possível, queremos que o sejam todos, porque não poderíamos rir quando os outros choram, cantar quando os outros gemem.
Eis aqui o que nós queremos, com todo o poder da nossa firmeza, com toda a energia da nossa perseverança.
Também o que queres, tu, que me lês? Queres viver, ser ditoso, ser livre? Queres que cada um seja livre, ditoso e que viva?... Sim? – Pois bem, depende de ti, de mim, de todos nós, que esta magnífica aspiração se converta em realidade. Se o queres resoluta e lealmente, despede-te, abandona, se preciso for, família, amizade, posições; foge da atmosfera pestilenta das igrejas, dos quartéis, dos parlamentos, e vem, vem combater livremente no meio dos homens livres.

                                                                                                                    Sébastien Faure

Retirado do periódico anarquista ‘A Guerra Social’ (Rio de Janeiro), 14 de Setembro de 1912, número 27, página 3, & também do periódico anarquista ‘A Revolta!’ (Santos), 14 de Novembro de 1913, número 5, página 1.


O que não queremos


           
Não queremos Estado porque o Estado, pseudo-mandatário é servidor do povo, por procuração geral e ilimitada dos eleitores, mal nasce logo cria para si um interesse a parte, muitas vezes contrário ao interesse do povo; porque, servindo esse interesse, faz dos funcionários públicos criaturas suas, resultando daqui o nepotismo, a corrupção, e pouco a pouco a formação duma casta oficial, tão inimiga do trabalho como da liberdade... 
Não queremos Estado porque o Estado, para engrandecer o seu poder extrapopular, tende a multiplicar indefinidamente os seus empregados; depois, para se os prender cada vez mais, a aumentar-lhes continuamente os vencimentos...
Não queremos Estado porque, quando o imposto já não basta as suas dilapidações, ao desempenho dos seus favores e sinecuras, o Estado recorre aos empréstimos e desfalques, e depois de ter empalmado o dinheiro alheio, ainda acha meio de obter aplauso para as suas rapinas...
Não queremos Estado, porque desejaríamos limpar a sociedade de tudo o que se chama bancarroteiros, usurários, abutres, agiotas, ladrões, gatunos, estelionatários, concessionários, falsários, moedeiros falsos, prestímanos, parasitas, hipócritas e homens de Estado; porque a nosso ver todos os homens de Estado se assemelham e todos são, com gradações, comedores de carne humana, no dizer Catão.

Pierre-Joseph  Proudhon

Retirado do periódico anarquista ‘A Guerra Social’ (Rio de Janeiro), 14 de Setembro de 1912, número 27, página 3


Élisée Reclus Fala aos Jovens

           
Queridos camaradas:

Temos, em geral, o costume de exagerar tanto nossa força quanto nossa debilidade; assim, durante épocas revolucionárias, nos parece que o menor de nossos atos deva ter consequências incalculáveis e, ao contrário, em certo marasmo, toda a nossa vida, ainda que consagrada inteiramente ao trabalho, nos parece infecunda e inútil.
Que devemos fazer então para mantermo-nos em estado de vigor intelectual, de atividade moral e de fé no bom combate?
Dirigi-vos a mim, porque supondes que tenho experiência dos homens e das coisas.
Pois bem, em minha qualidade de ancião, me dirijo aos jovens para dizer-lhes:
Fora as querelas e personalismos. Escutai os argumentos contrários depois de haver expostos os vossos; sabei calar e refletir; não procureis ter razão em detrimento da vossa sinceridade.
Estudai com discernimento e perseverança. O entusiasmo e a abnegação, ainda que até a morte, não são o único meio de servir a causa. É fácil dar a vida; nem sempre fácil conduzirmo-nos de modo que nossa vida sirva de exemplo. O revolucionário consciente não é somente homem de sentimento, é também homem de raciocínio, cujos esforços totais em procura de maior justiça e solidariedade se apóiam sobre conhecimentos exatos e sintéticos de história, sociologia, biologia. É o que pode, por assim dizer, incorporar suas ideias pessoais ao conjunto genérico das ciências humanas e enfrentar a luta sustentado pela imensa força que esgotará em seus conhecimentos.
Evitai as classificações; acima de partidos e pátrias, de proclamar-vos russo, polaco ou eslavo, sede homens ávidos de conhecer a verdade, despojados de todo pensamento de interesse, de toda ideia de especulação ante chineses, africanos ou europeus; o patriota chega a detestar o estrangeiro, a perder o sentimento de justiça que alimenta seu mais puro entusiasmo.
Não vos atreleis a patrão, chefe ou apostolo cuja linguagem seja considerada palavra do Evangelho; fugi dos ídolos e não busqueis mais que a verdade de quando diga o amigo mais querido ou do professor mais sábio. Se, escutando-o conservais alguma dúvida, buscai em vossa consciência e recomeçai o exame para julgar em última instância.
Refugai, pois, toda autoridade, para cingir-vos ao respeito profundo de uma convicção sincera, vivei a própria vida, porem reconhecei a cada um inteira liberdade de viver a própria.
Se vós lançais a luta para vos sacrificardes em defesa dos humilhados e ofendidos, em boa hora, companheiros, afrontai nobremente a morte. Se preferes o lento e paciente trabalho ansiando por melhor provir, melhor ainda convertei-vos no objeto de cada um dos instantes de vida generosa. Porém, se escolheis a pobreza entre os pobres, em completa solidariedade com os que sofrem, que vossa existência irradie a claridade benfeitora, no exemplo perfeito e no fecundo ensinamento.            

                    Saúde, camaradas!

Retirado do periódico anarquista Ação Direta (Rio de Janeiro) –– Outubro e Novembro de 1952, nº83, ano 6, p. 3.