quarta-feira, 2 de julho de 2014

Drogas, prazer, liberdade & anarquismo!

No dia 28 de setembro do ano passado, ocorreu na Biblioteca Carlo Aldegheri a palestra "Drogas, Prazer, Liberdade & Anarquismo", ministrada pelo companheiro Antônio Carlos de Oliveira, membro do Centro de Cultura Social de São Paulo (CCS/SP). Abaixo segue texto descrito por aquele palestrante onde é apresentado o conteúdo daquela atividade.




DROGAS, PRAZER, LIBERDADE & ANARQUISMO[1].
Se eu quiser fumar, eu fumo / Se eu quiser beber, eu bebo / Eu pago tudo que eu consumo / Com o suor do meu emprego / Confusão eu não arrumo / Mas também não peço arrego / Eu um dia me aprumo / Pois tenho fé no meu apego” Maneiras - Zeca Pagodinho.
1               1.      Vida e Intensidade das Drogas: um depoimento pessoal de um anarquista.   
Escrever esse texto foi mais difícil que fazer a palestra com o mesmo titulo no Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (Guarujá - 28/9/13)[2]. Em uma palestra temos menos pessoas e as bobagens, mesmo gravadas, tem uma repercussão menor.  
Contudo, há tempos que desejo questionar algo que está muito difundido em nosso meio, a ideia de que fazer o uso de varias substâncias químicas é expressão de uma determinada forma de liberdade. Para alguns é a própria expressão do anarquismo, outros mais ingênuos acreditam que esse uso é uma forma de contestação da ordem. 
Tais reflexões são resultados dos meus 49 anos de existência, sendo 20 desses como usuário dos mais diferentes tipos de drogas, além, de uma longa busca de entendimento sobre as causas que me levaram a esse comportamento. Busca essa que sempre acompanhou minha diferente forma de viver, porém, que se torna mais critica, a partir de 1993, quando escrevi meu primeiro projeto pedagógico de pesquisa sobre o tema, para o CEFAM (Centro de formação do magistério), e em 1995 para o centro de Convivência (PUC/SP). No entanto, a reflexão se aprofunda quando assumi a perda de controle sobre minha própria vida, e fui para um grupo de autoajuda em 1998, portanto, sou um dependente químico em recuperação e tento ser um estudioso sobre o tema. Meu pai era alcoólatra e com o desenvolvimento da doença se tornou uma pessoa bastante violenta, assim, somada a experiência familiar meu tempo de contato com essa situação é maior.
Infelizmente, em nosso meio alguns tem muita pressa em tomar uma posição sem conhecer o todo, limitando-se a análise das partes, assim, sugiro que leiam o texto todo e mantenham a mente aberta. Outra característica comum, é que aqueles que se posicionam e desagradam são execrados, viram traidores ou inimigos mortais. Entendo essa limitação ética, solidária e intelectual dos que julgam, não gostaria de ser um desses excluídos, mas se assim for, que seja. Nunca quis ser ou fazer parte da maioria. Essa é uma das mais fortes razões desse texto ser tão difícil!

2.Essas ideias já foram questionadas
"As divergências entre libertários tem que ser cordiais. Cada militante deve ter a sua própria personalidade, apresentar os problemas como melhor interpretar, mas disposto sempre a corrigir erros e retificar sempre que se demonstrar o equivoco e a falta de razão. O não compartilhar da opinião dos demais, não estar de acordo com fulano ou beltrano não justificas tirar o corpo e não contribuir com a parte que lhe corresponde na hora de meter o ombro na obra comum" (Fragua Social, nº 24, out./1980 de Jose Hiraldo).

Durante a palestra citada, um companheiro que muito estimo disse que minha fala parecia com a dos militantes do século passado que faziam campanha contra as bebidas alcoólicas, respondi que de certa forma sim. Eu, talvez mais que muitos, posso por experiência pessoal, falar dos malefícios que o uso abusivo e indevido de várias substâncias químicas podem causar. Também reafirmei que não estava ali falando contra ninguém ou nenhuma substância química em particular. Compreendo que dentro das garrafas de bebida alcoólica não vem violência, a violência está no indivíduo que a usa, e que por razões de sua história pessoal ou contexto se torna violento. Ademais, o dono do bar, da padaria, da farmácia, em muitos casos, dependendo do contexto, são tão traficantes quanto aqueles que ficam escondidos, nas quebradas da vida, vendendo sem marketing e a “proteção” da polícia, seus “bagulhos”.   
Uma garota que fez parte da Marcha da Maconha no litoral paulista disse que minha fala era igual a da Globo, fiquei com uma vontade enorme de rasgar o verbo, mas isso tudo é tão desnecessário, não estava lá para brigar com ninguém. Inclusive quem acredita nos efeitos benéficos da maconha, coisa que em parte posso até não discordar, afinal, pesquisas demonstram que o uso medicinal da maconha para doentes crônicos trás vários benefícios, que uma taça de vinho ou um copo de cerveja não são de todo prejudiciais, mas, será que isso se aplica para todos os que estão agora experimentando, ou os que fazem o uso diário?
Ninguém, absolutamente ninguém nasce sabendo quem será ou não um dependente químico. Mesmo os filhos de dependentes químicos que tem uma diferença genética que os torna mais suscetíveis não estão obrigatoriamente fadados a serem portadores dessa doença chamado alcoolismo ou “adicção”[3], depende de outros fatores e do contexto de suas vidas. Como saber quem se tornará um doente? O que nos leva a ficar doente? Penso sempre na brincadeira da roleta russa, um revolver, seis espaços, uma bala, puxa o gatilho, pode não ser na primeira, talvez nem na segunda, mas em algum momento, BUM! Nos tornamos um dependente químico, um doente.
Curioso faço uso de diferentes substâncias desde 1980, e as músicas consideradas de contestação e que fazem apologia das drogas, como as de Raul Seixas, ou do grupo de Rap “De menos crime”, com a musica “Fogo na bomba”, Racionais MC, em várias de suas músicas, Marcelo D2 em outras, exaltam a maconha, mas ao mesmo tempo, alertam “cuidado que ela pode te dominar!”, “você tem de fazer a cabeça não ela te fazer a cabeça”.
Mesmo os que acreditam no carácter benéfico dessas substâncias deveriam ter em mente que nenhum ser humano é igual a outro e que aquilo que não me faz mal talvez faça para outra pessoa, assim associado a toda luta pela descriminalização ou liberação deveria estar também a luta pelos esclarecimentos necessários quanto aos possíveis prejuízos que podem trazer a muitos.
Quanto a minha fala ser semelhante a da Globo, mais que isso o importante são meus atos. Moro no extremo da Zona Leste, PQ S. Rafael, distrito de São Matheus, minha casa fica em frente a um córrego poluído e fétido. Logo depois uma favela, hoje urbanizada, que existe há tanto tempo, ou mais que eu de vida. Trabalho em uma escola estadual que fica encravada no meio de outra favela próxima de casa; há tempos tive condições de sair desse lugar, de trabalhar em uma escola melhor localizada, mas..... fiz uma opção na vida. Ficar entre aqueles com que me identifico, viver onde minha família viveu, colocar meus parcos recursos a sua disposição, a disposição de uma causa.

3. Algumas considerações sobre o tema drogas
Droga é toda substância química que, introduzida no organismo, provoca alterações no sistema nervoso central. Há vários tipos de drogas e aqui não nos interessa se são lícitas ou ilícitas. As características do indivíduo, a qualidade da droga, a expectativa sobre seus possíveis efeitos e as circunstâncias em que ocorre o consumo implicam situações diferentes. Por isso que é importante ressaltar que, para ser mais bem compreendido, o tema drogas precisa ser abordado considerando-se três fatores: o indivíduo, o produto e o contexto sociocultural. Há sempre um indivíduo que tem acesso a um produto em um contexto sociocultural qualquer.
Realmente existe prazer no uso de drogas. O problema está na memória, que, com o tempo, vai nos traindo, até chegarmos a uma doença incurável, que afeta o físico, o mental. Não negamos o prazer que se obtém com o uso de drogas, porém, o consideramos imediatista, e o preço a ser pago por ele extremamente alto
Fala-se em predisposição do indivíduo, que seria determinada por sua história familiar e individual; porém, é necessário levar em conta o efeito atrativo do prazer e o significado que ele assume no universo do indivíduo, ou seja, o espaço que preenche e as expectativas que atende.
A tolerância se estabelece lentamente; o organismo permanece sensível ao excesso de droga. Isso significa que o uso repetido de determinada droga faz com que seja necessário usar doses cada vez maiores para obter os mesmos efeitos experimentados.
Nem todos fazem uso abusivo das drogas. Há os experimentadores, que se limita a poucas vezes; aqueles que fazem uso recreativo ocasional, isto é, indivíduos que utilizam um ou vários produtos de maneira esporádica; aqueles que fazem uso habitual ou funcional, ou seja, aqueles que reiteram o uso do produto, o qual, embora controlado, já ocasiona ruptura escolar, profissional, familiar e afetiva, mesmo quando a integração social (funcional) é preservada. O dependente disfuncional (toxicomaníaco) é aquele que estabelece uma relação de exclusividade com a droga, quando ela passa a dominar toda a sua vida e o torna um dependente químico.  
Algumas das motivações podem ser: a curiosidade, qualidade natural do ser humano; os grupos ou movimentos culturais, em virtude da identificação com determinados modelos de comportamento; a fome, a falta de perspectivas, as dificuldades de relacionamento, a saúde, as dificuldades de acesso à informação e à formação cultural; a já citada busca do prazer imediato/intenso, ou seja, o desejo de chegar ao êxtase sem esforço da consciência.
A questão é que a memória registra o primeiro prazer. O uso contínuo é a busca da repetição desse prazer, que ficou registrado na memória, mas que não ocorrerá mais da mesma forma. A partir daí, vai-se desenvolvendo a doença.
dependência não se dá somente em relação às drogas, mas também em relação às pessoas, aos objetos, às situações etc. e pode ser física (adaptação do organismo ao uso de determinada droga) ou psicológica (impulso para continuar usando a droga, [compulsão], para reexperimentar o prazer). Apesar de incurável, essa doença tem um tratamento, que pressupõe total abstinência das drogas e mudança radical na qualidade de vida.
Entre outros aspectos do processo de recuperação cito, como sugerem nos grupos de auto ajuda “abandonar as velhas companhias e os velhos lugares” esses estão muito associado a nossa vida durante o consumo dessas substancias, dentro do possível “reparar os erros que cometemos”,  etc.

4.Nosso passado mais distante
Pensemos. Como na virada pro século XX os jovens do passado tinham contato ou chegavam ao anarquismo? Pelo que vemos na literatura e nos relatos que nos contaram os companheiros (as) mais velhos (as), eles chegavam pela família que os levava ou através das juventudes libertárias que eram espaços de organização dos jovens.
Muitos desses pais e mães eram os mesmos homens e mulheres que faziam a campanha contra o tabaco ou as bebidas alcoólicas, por outro lado, ainda que se tomasse um copo de vinho isso não era fora de um contexto social, ou antes, das refeições. Com certeza havia os “borrachon”, dependentes das bebidas alcoólicas e até de outras substâncias no meio anarquista, mas o contexto, as relações interpessoais e a forma de organização devia proporcionar uma forma mais protetora e coerente de lidar com o problema.
Lembremos que no Brasil durante muito tempo uma das parcelas mais expressivas do movimento libertário era de cunho anarcosindicalista, contra esses a repressão estatal das várias ditaduras foi mais intensa. Sem contar os diversos outros problemas que o movimento enfrentou e que contribuiu para que o movimento perdesse muito da combatividade das décadas anteriores.

4.1.Década de 1960: É proibido proibir!
Posso estar falando uma besteira gigantesca, mas em nosso caso particular, acredito que começa a ocorrer uma mudança significativa na década de 1960 com os movimentos de contra-cultura, a agitação dos estudantes e trabalhadores franceses, a resistência a guerra do Vietnã, o movimento hippie. Com isso inauguram uma nova e forte onda de resistência a ordem estabelecida, no bojo dessa situação ocorrem outras mudanças também de contestação à forma de organização familiar, aos papéis pré-estabelecidos entre homens e mulheres, à educação reprodutora do status quo, a forma de produção em massa e a destruição do meio ambiente, as inúmeras ditaduras na America Latina, Central, etc. 
Entre outras coisas os movimentos de contra-cultura trazem a experimentação de várias substâncias como forma de contestação da ordem. Como exemplo podemos citar os integrantes da banda The Doors, principalmente seu vocalista – Jim Morrisson, que usavam essas substâncias para “abrir as portas da percepção”. Muitas foram as figuras de grande expressão na música, literatura, cinema etc que morreram de overdose “meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder” Cazuza. 
Uma das frases e palavras de ordem mais emblemáticas do período foi “É PROIBIDO PROIBIR”, para muitos tinha relação com a censura que era intensa, hábitos e costumes arcaicos e ultrapassados que tudo proibia. Para outros com a crença de que nada podia ser proibido, e consequentemente tudo devia ser liberado, até aí tudo bem, certíssimo, nada deveria ser pura e simplesmente proibido. Nesse momento, para muitos, teve início o uso de várias substâncias químicas para experimentação que a muitos levará à doença, loucura ou morte, ouso dizer que a proporção dos que se recuperam, ou conseguem ter uma vida saudável após esse período é menor daqueles que continuam sofrendo. Entre muitos dos legados recebidos tão positivos, esse é um dos negativos.  
           
            4.2.Década de 1980 e o ressurgir do anarquismo
Existe uma literatura e historiografia comprometida com seus interesses de classe social ou política, entre outros, os marxistas que tentaram fazer crer, que o anarquismo desapareceu. Contudo, pela convivência com os militantes mais velhos, e inúmeras pesquisas sabemos que isso é uma mentira. Evidente que o anarquismo perdeu parte da força que tinha no passado, mas sempre se manteve vigilante, firme e forte nas brechas dessa sociedade.
Ressurge de forma pública na década de 80 com os companheiros do Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista, e o jornal Inimigos do Rei, na Bahia, do Grupo Anarquista Jóse Oiticica no RJ, em SP com o Centro de Cultura Social, reaberto no Brás em 1985, assim como outros em muitos lugares.
No CCS estavam nossos companheiros mais experientes, a geração que sobreviveu às ditaduras, hoje muitos falecidos, entre eles muitos espanhóis que lutaram na guerra civil e portugueses que resistiram a ditadura salazarista, a esses se somaram trabalhadores, estudantes e professores universitários.
Mas, uma característica marcante desse momento é um enorme hiato geracional, uma diferença de idade que em muitos casos ultrapassava 30 anos. Quando cheguei ao CCS ainda participava do movimento punk, era estudante secundarista e metalúrgico tinha 20 anos e era um dos mais jovens, o que vinha logo após, tinha 20 anos a mais e os demais mais de 30.
Nós da década de 1980 começamos (ou demos continuidade) a um ciclo em que os jovens se iniciam cada vez mais cedo no mundo das experimentações das diferentes substâncias químicas, geralmente primeiro em nossas casas nas festas familiares, ou com nossos pais. Quem não se recorda da cena? A “criança olhando para o copo de cerveja, vinho ou até caipirinha de alguém, e o outro diz, molha a chupeta no copo para ela não ficar com vontade; ela pode ficar doente, ter lombriga”. Era comum, habitual o uso doméstico de bebidas alcoólicas entre outras substâncias, e que depois se estendia para o uso com os colegas de escola ou de outros espaços, nos movimentos culturais juvenis com quem convivemos e onde os nossos modelos de pessoas eram outros igualmente doentes, muitos desses também já falecidos de overdose.  
Ainda que estudasse muito, diversos aspectos da vida como um todo e do anarquismo de forma geral, mantinha uma relação duvidosa e desafiadora em relação à sabedoria desses companheiros, no que diz respeito, a vários aspectos e também ao consumo das diferentes substâncias, das quais fazia uso, e negava os efeitos prejudiciais.  A NEGAÇÃO é a mais forte característica do dependente químico, e, não por acaso, os grupos de autoajuda mais antigos e com melhores resultados Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos, propõem no seu programa de recuperação, que o primeiro passo do doente “é admitir que perdeu o controle sobre sua vida”.
Enfim, éramos nós, a caminho da adicção, assumindo a militância ao lado daqueles que no passado faziam as tais campanhas preventivas em relação às várias substâncias químicas que podem trazer prejuízo a vida pessoal, familiar, política e social do indivíduo. Esse hiato nunca foi uma disputa geracional explícita, mas com certeza havia muita desconfiança em relação a nossa geração. Valorizávamos a nossa própria experiência e negávamos a experiência dos outros, que estavam marcadas pela história de vida desses militantes além dos registros da historiografia e literatura.
 Durante meus anos de CCS, convivendo com homens sábios e gentis, uma única vez, ouvi o Jaime Cubero, secretário do Centro de Cultura Social fazer um comentário pouco elogioso ao uso de substâncias químicas; certa feita bebendo cerveja em um grupo junto com o Chico Cubero, percebendo a velocidade com que eu sorvia a cerveja, ele me disse: “você não acha que bebe demais?
Certa vez, encontrei o professor Mauricio Tragtenberg perto da PUC onde lecionava, próximo de onde morava, e, conversando sobre a maconha, me disse:  “não vejo graça, fumar e depois ficar de boca aberta ‘moscando’”. Se eles insistissem – Jaime e Chico Cubero e Maurício Tragtenberg –, só nos afastaríamos, pois éramos – eu em particular - a própria negação em pessoa. Hoje, muitos de nós mais maduros, estamos dispostos a abordar e conversar sobre esse tema com um companheiro, um colega ou um familiar? Estamos preparados?

            5. ANARQUISMO: a mais alta expressão da ordem!
Elisée Reclus afirma que o anarquismo é a mais alta expressão da ordem, pois, é a ordem livremente construída de baixo para cima e aceita por todos os envolvidos, mas, para o adícto esse tema, essa ordem existe na teoria, no campo do conhecimento e não na prática.
Jaime Cubero definiu como ideias força o que outros definem como princípios anarquistas: liberdade/autonomia, organização do simples para o composto / federalismo (rede), autogestão, apoio mútuo e solidariedade; ideias-força que deveriam orientar as ações dos anarquistas em toda sua vida.
Para Daniel Guérin "não me torno livre senão pela liberdade dos outros... A pessoa só realiza a liberdade individual desde que se complete com todos os indivíduos que o envolvem e somente graças ao trabalho e ao poder coletivo da sociedade”. Tal liberdade traz em si outro componente igualmente valioso que é a responsabilidade pelos seus atos, afinal como pessoa livre devo antes de qualquer coisa responder primeiro a minha própria consciência e depois a sociedade libertária. Nessa direção Maurice Joyeux afirma que essa liberdade “(...) é o princípio que consubstancia um dos mais altos valores humanos é inconcebível sem a igualdade econômica".
O adicto por sua obsessão e compulsão reconhece a liberdade, mas não a vivência de forma responsável, senão o que dizer das suas falhas de carácter, quando não é responsável pelo seu dinheiro, pela sua vida? Como justificar isso aos seus companheiros de grupo, a sua família, esposa, filhos e amigos, quando não age de forma coerente com o que defende.
federalismo (REDE) deve ser visto como uma estrutura que cresce de baixo para cima, partindo do simples para o composto, da associação dos trabalhadores de uma empresa ou moradores, de uma região para outra e depois para a cidade, etc. A uma organização fundada na violência e no princípio da autoridade instituída: o ESTADO. Frente a essa instituição devemos opor associações fundadas na auto-organização das pessoas e dos grupos sociais, em âmbito do bairro, cidade, estado, nação, etc. É o indivíduo livre que se associa com outros igualmente livres para gerir todos os assuntos que lhes dizem respeito.
O adicto estará mais (associado) federado, com seus companheiros de consumo, aqueles com quem convive com mais frequência para fazer o seu uso frequente. Como uma verdadeira federação, ele se encontrará com outros dependentes químicos em qualquer lugar por onde andar, também nesse caso, os grupos de autoajuda sugerem como um dos seus passos “evitar os velhos caminhos e as velhas companhias”. 
Para Joyeux autogestão não é uma estrutura no seio da qual se elabora uma experiência socialista, ela é o fruto de uma experiência socialista que resulta da ruptura revolucionária. É quando se produz essa ruptura que intervém a autogestão, simultaneamente como autogestão das lutas e da economia (ou o que restar dela).
Como um adicto pode autogerir sua vida sendo dependente de substâncias químicas, de pessoas como o traficante ou de lugares onde geralmente consuma ou de objetos que fazem parte de seus rituais de uso?
É importante ressaltar que os libertários reconhecem a necessidade da adoção de regras em toda a sociedade; não pode existir autogestão sem regras. A consideração importante não é tanto se devem existir regras, e sim, sobretudo, o modo como as regras serão criadas, os processos determinarão sua extensão.  
Ainda que o adicto possa durante boa parte de sua vida ser um ser social produtivo e atuante nessa sociedade idealizada, quanto tempo levará para que ele se torne, pela sua condição de doente, um peso no futuro? É justo e aceitável que a sua liberdade vivenciada de forma tão irresponsável o torne um fardo para os demais?
De acordo com Errico Malatesta, essa forma de organização da sociedade pretendida pelos anarquistas “(...) outra coisa não é senão a prática da cooperação e da solidariedade, condição natural, necessária, da vida social, fato inelutável que se impõe a todos tanto na sociedade humana quanto em todo grupo de pessoas que tenham um objetivo comum a alcançar”. 
Com sua forma específica de organização e a aplicação desses princípios, os anarquistas desejam abolir de forma radical a dominação e a exploração do homem pelo homem. Querem os homens, unidos fraternalmente por uma solidariedade consciente, que cooperem de modo voluntário com o bem estar de todos, que essa sociedade seja constituída com o objetivo de fornecer a todos os meios de alcançar igual bem estar possível, o maior desenvolvimento possível moral e material.
O adicto é solidário e cooperativo até o momento que isso não dificulte seu desejo de consumir, não atrapalhe seus momentos e rituais de consumo. Quando isso acontecer ele se verá em uma situação que tanto poderá optar por continuar se enganando nessa zona de conforto quanto confrontando seu problema, buscando ajuda e descobrindo sua doença, incurável, mas tratável.
Os anarquistas estimam ser necessário que os meios de produção estejam à disposição de todos e que nenhuma pessoa ou grupo de pessoas, possa obrigar outros a obedecerem a sua vontade, nem exercer sua influência de outra forma senão pela argumentação e pelo exemplo. Que exemplo damos quando não temos o controle sobre nossas próprias vidas? Quando muitas vezes nos engamos dizendo “eu uso, mas paro quando quiser, tenho controle sobre minha vida, não sou viciado?”, mas, na prática já não vivo sem usar.  
Como o adicto pode estar pronto para a ação direta – que é democrática, pois cria espaços públicos em que cada um é um e você não delega a ninguém, por isso os anarquistas são contra o voto obrigatório nas eleições, defendem a auto-representação, cada cidadão é cidadão de si mesmo –  se muitas vezes ele esta presente com a mente ausente, na pratica delegando a outros lutarem por ele?
Para os anarquistas é necessário proceder imediatamente e como se puder à expropriação dos capitalistas; ocupação das fábricas, das terras, dos bancos, meios de transporte pelos trabalhadores. Inventário de todos os bens de consumo disponíveis e organização da produção e da distribuição através dos sindicatos, das cooperativas, das câmaras de trabalho, dos grupos de voluntários e de todos os tipos de associações existentes ou que se constituirão para responder as necessidades imediatas. A autogestão.
É uma necessidade imediata lutar para poder consumir? Consumir algo sem o que vivemos bem? Quando em particular entramos nessa ciranda de consumo nos diferenciamos dos playboys, que criticamos por irem ao shopping gastar com roupas e calçados caros? Como dizemos, roupas de grife famosas? Quando comprometidos com um grupo de militantes, colegas de um time de futebol ou uma famílias e escondemos parte ou a totalidade do dinheiro que recebemos pelo nosso trabalho para nosso consumo dessas substâncias químicas estamos de fato sendo éticos?  
Em uma sociedade libertária o uso, seja lá do que for, deverá ser livre, mas, será igualmente estimulado por todo tipo de propaganda? Não nos dedicaremos a estudar esse e outros aspectos de nossas vidas, para nos orientar e divulgar o resultado de nossas pesquisas, alertando para os malefícios que substâncias, alimentos, prática de vida, etc, que poderão causar danos em nossa vida em sociedade?
Enfim, com as tecnologias disponíveis seria possível realizar assembleias, mesmo que por representação, onde todos poderiam acompanhar os debates, e até intervir nas votações através das redes de computadores hoje disponíveis. Fazer reuniões e assembleias de bairro, cidades, intercidades, por regiões, nacionais, internacionais que tomariam as iniciativas necessárias, em concordância com as dos outros, e que as realizariam sem pretender fazer a lei para todos, nem as impor pela força aos reticentes.

6.Prazer e doença.
É evidente que alguns consumirão seus baseados ou suas cervejas, vinhos e outras bebidas, seus “remédios” sem prescrição médica, etc, durante toda a vida e não terão problemas, serão pais e mães responsáveis, militantes comprometidos, mas, podem garantir que se tiverem problemas conseguirão superar a negação? Procurarão ajuda? Sabem onde procurar?
Não posso negar o “prazer” que desfrutei durante certo tempo de minha experiência, contudo, com o consumo cada vez mais compulsivo e obsessivo fui perdendo o controle e comprometendo, a minha qualidade de vida, bem como daqueles que mais amo.
As drogas proporcionam prazer? Sem sombra de dúvidas! Afinal temos uma dor de dente e tomamos uma droga para aliviá-la. Era prazeroso beber uma cerveja, mas o que dizer de uma dezena ou mais? Desde a adolescência tenho insônia e nada mais prazeroso que fumar um baseado para dormir bem, mas e quando não o temos, não teremos insônia do mesmo jeito? E quando, além da hora de dormir, fumamos durante todos os momentos do dia? E quando nosso último pensamento antes de dormir é “fumar um”, e ao acordar é fumar outro? Isso para ficar nas drogas, cuja dependência se estabelece mais lentamente, existem outras cuja dependência é mais rápida e intensa, nos torna doentes mais rapidamente, com um comprometimento pessoal quase que total. Existe sim o prazer, mas nesse caso, o preço pago por ele é alto demais e imediatista.
Ação preventiva
Estarão os companheiros atuais e futuros, usuários das mais diferentes substâncias químicas, em condições de reconhecer sua lenta e paulatina perda de controle? Do desenvolvimento dessa doença chamada alcoolismo e adicção? Aqueles que hoje dizem não ter esses tipos de problemas podem afirmar, sem nenhuma sombra de dúvidas, que não os terão?
Os que são usuários, e acreditam ter esse controle, conseguem reconhecer que isso pode, ou está, acontecendo em qualquer lugar, inclusive, na sua casa, no seu local de estudo, trabalho, cultura e lazer?  
Estamos prontos a exercer de forma responsável e solidária nossa liberdade, no sentido de conversar com esses companheiros, amigos e familiares, convidando-os a perceber o quanto que comprometem suas vidas? O quanto eles e nós perdemos em nossas vidas com suas escolhas?  O quanto isso é um projeto de MORTE e o ANARQUISMO propõe um projeto de VIDA?
Somos cooperativos o suficiente em apoiá-los para que sintam a confiança necessária, e novamente assumirem o controle de suas vidas? Para autogerirem suas vidas de forma autônoma, responsável, solidária, cooperativa na obra comum que nos propomos realizar?
Que se libere o consumo de todo tipo de substâncias químicas. Muitos argumentam que morrerão muitas pessoas! Não morrem hoje? A proibição é um fenômeno político e cultural. Em outras época e contextos o que hoje está proibido já foi liberado, vemos pelo mundo experiências de descriminalização, liberação e ate de legalidade. Mas sempre tenhamos a coragem de assumir uma posição de questionamento em relação a tudo, inclusive ao nosso exercício da liberdade.
Continuo tendo amigos e colegas que são usuários contumazes e muito os respeito, mas, “quem quiser julgar que julgue, quem quiser criticar que critique”, (qualquer semelhança com Zeca Pagodinho não é mera coincidência), posso falar por experiência que, no meu caso não deu certo. Convivi, e convivo, na condição de educador, ser politico e social, morador da periferia com essa experiência que para muitos continua não dando certo.
Às vezes, acho que hoje ser careta é ser revolucionário, pois são muitas as desculpas e estímulos que nos levam a experimentação e ao uso abusivo e indevido dos mais diferentes tipos de substâncias químicas. 

Antônio Carlos de Oliveira
Professor Coordenador Pedagógico da EE Prof. Isaac Shraiber - Março de 2014





[1] No processo de construção desse texto dois companheiros e amigos foram imprescindíveis, Jose Damiro Moraes, Professor Doutor em Educação e Edvaldo Vieira da Silva, Professor Doutor em Ciências Sociais, ainda assim todas as ideias aqui apresentadas são de minha única e exclusiva responsabilidade.
[2] Agradeço imensamente aos companheiros do NELCA por abrirem o espaço para essa discussão, não é um ponto de vista muito comum e ainda que seja de minha responsabilidade tudo que exponha eles são os responsáveis pelo espaço e sua programação.
[3] Adicto é a forma como é tratado o usuário de vários tipos de substâncias químicas diferentes, uso por ser o mais comum, mas é tema controverso, afinal o alcoólatra que é tabagista não faz uso de duas substâncias químicas diferentes? Muitos alcoólatras em recuperação não aceitam tal definição.

domingo, 20 de abril de 2014

Vozes Libertárias!!!










No dia 23 de novembro de 2013, ocorreu na Biblioteca Carlo Aldegheri a última atividade realizada pelo NELCA, naquele ano. Esta atividade foi a palestra do companheiro Carlo Romani, tratando do tema "Conjuntura brasileira atual & retomada do anarquismo de massa”. Partindo de uma introdução histórica do anarquismo, seu desenvolvimento e seus diversos segmentos seguindo até as recentes manifestações de 2013, especificamente no Rio de Janeiro. Mais uma ação difusora do ideário ácrata, com sala cheia, e a palestra do companheiro foi mais um instrumento para um melhor entendimento da atual conjuntura das manifestações políticas. Abaixo segue link com o áudio desta fala.







quarta-feira, 12 de março de 2014

Vozes Anarco-Punxs

No dia 2 de novembro de 2013, organizamos a última atividade em parceria com a Cinemateca de Santos do ano, dessa vez, projetando o documentário: “Todo Fim É Um Começo!” (Produção: Anarco.Filmes & Coletivo Cultive A Resistência, São Paulo, 2012, 68 Minutos), também pela primeira vez exibido na Baixada Santista. O evento se seguiu com um debate sobre a história e as perspectivas do movimento anarco-punk em São Paulo, que ficou a cargo do Josimas Ramos (Cultive a Resistência/Itanhaém) e da Marina Knup (Imprensa Marginal/SP) que também é uma das principais produtoras do documentário exibido. O debate contou com uma perspectiva histórica a cerca do surgimento e do desenvolvimento do movimento anarco-punk na cidade de São Paulo, não apenas falando sobre os fatos que marcaram essa história, mas também adentrando nas questões políticas e ideológicas, assim como abordando alguns projetos que estão acontecendo na atualidade. O público mais uma vez lotou a Cinemateca de Santos.

Abaixo segue áudio desta atividade, onde pode-se ouvir, conhecer e refletir sobre a história do cenário anarco-punk brasileiro e suas perspectivas.
Inicialmente segue a abertura, apresentação da atividade pelos membros do NELCA:

http://www.4shared.com/mp3/vdmF3inr/nelca-movimento-anarcopunk-abe.html

Agora a palestra em si, com vocês Marina Knup e Josimas Ramos, e o debate.

http://www.4shared.com/mp3/fda5MIZS/nelca-movimento-anarcopunk-deb.html

Agradecemos aos companheiros da Rádio da juventude por este serviço de coletor de vozes, valeu mesmo!

sexta-feira, 7 de março de 2014

SE ORGANIZE & AGENDE-SE:


BAKUNIN têm um recado para você:

"O problema não é saber se o povo pode se sublevar, mas se é capaz de construir uma organização que lhe dê os meios de se chegar a um fim vitorioso".
Então, SE ORGANIZE & AGENDE-SE: Calendário de atividades do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (Guarujá-SP), para o primeiro semestre de 2014 !!!


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Recordando 2013: nossas ações e participações - parte 2

Retomando o relato das atividades realizadas pelo Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA), a partir do 2º semestre de 2013.


No dia 27 de julho de 2013, organizamos na Cinemateca de Santos mais um evento, dessa vez, a exibição do documentário “Juízo: Jovens Infratores No Brasil”, da diretora Maria Augusta Ramos (2008, 90 minutos), que projeta um olhar crítico sobre a realidade socialmente dramática e as condições de ressocialização duvidosas a que são submetidos os infratores menores de idade (de 12 a 18 anos). Nos dias atuais, em que o discurso pela redução da maioridade penal é quase que uma unanimidade popular (inclusive nas camadas mais pobres da sociedade brasileira), esse importante debate ficou por conta dos companheiros Ruivo Lopes (membro do Coletivo Perifatividade de São Paulo) & Tubarão Santos (artista plástico que já trabalhou desenvolvendo oficinas na Fundação Casa) que com inúmeros exemplos práticos foram explicitando o porquê a redução da maioridade penal é uma afronta aos direitos humanos básicos. O público que prestigiou o evento participou bastante do debate fazendo comentários e indagações.
Na introdução do evento, um companheiro do NELCA lembrou o crime da Fábrica Penteado (São Paulo), amplamente denunciado por anarquistas e sindicalistas no ano de 1921, quando o menino Daniel, esquecido dentro da Fábrica Penteado, foi devorado por cães. O episódio da tragédia foi lembrado para fazer uma rápida comparação entre a situação das crianças menores de idade no passado e no presente.


Dando continuidade ao nosso trabalho de aprofundamento no debate e na formação política anarquista, a partir do dia 2 de agosto de 2013, o NELCA conseguiu dar início aos grupos de estudos abertos sobre a teoria e história do anarquismo, projeto esse que estava em nossos planos fazia algum tempo e o qual entendemos de extrema importância para nosso trabalho por vários motivos: socialização dos documentos que se encontram na Biblioteca Carlo Aldegheri, aproximação de pessoas que possuem afinidades com nosso projeto, realização de debates francos sobre a teoria e prática anarquista, contribuição para a formação política de novos militantes, entre outros...    
O grupo de estudos, que está sendo realizado quinzenalmente na própria Biblioteca Carlo Aldegheri, iniciou debatendo o texto “Pré-Anarquia” (1931) de autoria do anarquista italiano Randolfo Vella, que foi reeditado no Brasil em 1963, pelo próprio Carlo Aldegheri, que era amigo particular de Randolfo Vella. Devido a ditadura militar que se instaurou no país em 1964, o texto não ficou muito conhecido nem mesmo no interior do próprio movimento libertário brasileiro, de forma que o nosso grupo de estudos também serviu como um resgate histórico desse texto. Agora no início de 2014, estaremos retomando os grupos de estudos abertos quinzenais em breve...


No dia 9 de agosto de 2013, membros do NELCA participaram da manifestação em protesto contra a morte de Ricardo Ferreira Gama.
Ricardo Ferreira Gama era um funcionário terceirizado da Unifesp Baixada Santista, onde trabalhava como auxiliar de limpeza. No dia 31 de julho de 2013, após responder a uma ofensa feita a ele, foi agredido pela polícia em frente da faculdade onde trabalhava. No dia seguinte, na madrugada do dia 1º para o dia 2 de agosto, Ricardo foi assassinado com oito tiros em frente de sua casa (próximo do local onde trabalhava), por homens encapuzados.
A manifestação partiu de frente da Unifesp, na Rua Silva Jardim (local onde Ricardo trabalhava e que foi abordado pela polícia), no Bairro da Vila Nova, na cidade de Santos, passando pelas ruas adjacentes. Maiores informações sobre essa manifestação podem ser vistas na reportagem que segue abaixo.

Maiores informações sobre o caso nesse link: http://quemmatouricardo.noblogs.org/


No dia 13 de agosto de 2013, o NELCA foi convidado para gravar uma entrevista nos estúdios do canal Net Cidade, em São Vicente, para o programa de televisão “Bem Estar Criança”, que foi ao ar no início do mês de Outubro para toda região da Baixada Santista. Quem quiser conferir a entrevista que fala sobre o trabalho que desenvolvemos em nossa região e toca em temas como a trajetória política de Carlo e Anita Aldegheri, maioridade penal, cultura libertária, entre outros assuntos, é só clicar nos links que seguem abaixo:


No dia 4 de setembro de 2013, o NELCA em conjunto com o Núcleo de Estudos Heleieth Saffioti, organizou na UNIFESP – Campos da Baixada Santista, um evento onde foi exibido pela primeira vez na região, o documentário: “Indomáveis – Uma História de Mulheres Livres” do diretor Juan Felipe (Espanha, 2011, 61 minutos, Legendado pela Biblioteca Terra Livre), que após uma introdução histórica sobre o grupo Mujeres Libres da Espanha e um breve relato sobre o protagonismo feminino no movimento anarquista, seguiu-se com um interessante debate sobre o tema: “Machismo nos Meios de Esquerda na Atualidade” pelo Núcleo de Estudos Heleieth Saffioti. Apesar de se tratar de uma quarta-feira à noite, o evento contou com um bom público, que participou ativamente do debate.


No dia 11 de setembro de 2013, a Biblioteca Carlo Aldegheri recebeu com muita satisfação em sua sala uma atividade que fez parte da 2ª Semana Canábica de Santos e Região, que foi organizada pelo Coletivo Marcha da Maconha da Baixada Santista. O tema do debate foi “Saúde: O Que Estamos Ignorando e Escondendo? Cannabis Medicinal e Retrocessos nas Conquistas da Luta Antimanicomial”. O evento contou com impressionantes depoimentos de Beto Volpe, que convive com o vírus HIV e desenvolve toda uma militância em questões que envolvem essa condição há mais de 24 anos, e também do companheiro Luiz Carlos, que compartilhou sua história de vida, com seus vícios, dificuldades e conquistas. Como mediadoras do debate, tivemos as importantes participações das psicólogas Marília Capponi e Gigi Annie Louise que contribuíram muito trazendo suas experiências profissionais na atuação com dependentes químicos. O debate girou em torno da questão da redução de danos, tanto no uso da maconha medicinal, como na substituição de drogas mais danosas pelas mais leves. Mais uma vez, apesar de ser uma quarta-feira à noite, tivemos um bom público que contribuiu com o evento.


No dia 28 de setembro de 2013, o NELCA organizou na Biblioteca Carlo Aldegheri, mais um evento e o tema era novamente as drogas, dessa vez, sobre o título: “Drogas, Prazer, Liberdade e Anarquismo”, fala bem polêmica que ficou a cargo do companheiro Antônio Carlos, professor graduado em história pela PUC-SP. O palestrante iniciou sua fala a partir de sua relação pessoal e desastrosa com as drogas, que em certos momentos além de dificultarem sua militância política, também trouxeram muitas conseqüências negativas para sua vida pessoal. A partir do momento que o público foi intervindo, comentando, questionando e criticando a fala do Antônio Carlos, o depoimento do companheiro foi gradativamente avançando de uma perspectiva pessoal para um ponto de vista mais político em relação ao tema. Apesar da dificuldade em abordar o tema sob o ponto de vista libertário, pelas próprias divergências que o assunto incita, acreditamos que o debate foi bastante instigante e produtivo, contando com um bom público.


No dia 29 de setembro de 2013, membros do NELCA participaram da 2ª Parada LGBT do Guarujá & da Baixada Santista, em Vicente de Carvalho. A manifestação percorreu parte da Avenida Santos Dumont até a Praça 14 Bis. Esse ano apesar do público menor, por causa da chuva, avaliamos o evento como mais interessante do que no ano passado, pelo fato de não ter nenhum político usando a atividade para fazer propaganda partidária (ressaltando que 2013 não foi ano eleitoral, ou seja, olhos bem abertos para os políticos interesseiros que deverão aparecer nesse ano !!!). A parada terminou na Praça 14 Bis com vários depoimentos e manifestações no carro de som e depois se seguiu com as tradicionais performances da Parada LGBT.


No dia 18 de outubro de 2013, o NELCA organizou mais uma atividade na Biblioteca Carlo Aldegheri, recebendo dessa vez a fala do companheiro Luiz Eduardo Santos, coordenador do Instituto Joana Darc & do 3G (Grupo Gay do Guarujá). O tema do debate foi: “Combatendo a Homofobia no Cotidiano”. Talvez por se tratar de uma sexta-feira à noite, com um clima chuvoso, o público que compareceu (apesar da boa divulgação) foi bem reduzido. A palestra por sua vez, foi bem interessante, o Luiz Eduardo Santos começou dando um histórico da questão do HIV-AIDS na cidade do Guarujá e falando sobre o surgimento do Instituto Joana Darc, para em seguida, se aprofundar na questão da homofobia, distinguindo a homofobia em dois modelos: o modelo clássico de homofobia (o mais antigo e abertamente declarado) e o modelo mais velado de homofobia (o mais comum atualmente, inclusive se escondendo sobre o manto da religião e da política). Foi um debate bastante informativo e engrandecedor!


No dia 2 de novembro de 2013, organizamos a última atividade em parceria com a Cinemateca de Santos do ano, dessa vez, projetando o documentário: “Todo Fim É Um Começo!” (Produção: Anarco.Filmes & Coletivo Cultive A Resistência, São Paulo, 2012, 68 Minutos), também pela primeira vez exibido na Baixada Santista. O evento se seguiu com um debate sobre a história e as perspectivas do movimento anarco-punk em São Paulo, que ficou a cargo do Josimas Ramos (Cultive a Resistência/Itanhaém) e da Marina Knup (Imprensa Marginal/SP) que também é uma das principais produtoras do documentário exibido. O debate contou com uma perspectiva histórica a cerca do surgimento e do desenvolvimento do movimento anarco-punk na cidade de São Paulo, não apenas falando sobre os fatos que marcaram essa história, mas também adentrando nas questões políticas e ideológicas, assim como abordando alguns projetos que estão acontecendo na atualidade. O público mais uma vez lotou a Cinemateca de Santos.


No dia 3 de novembro de 2013, membros do NELCA mais uma vez estiveram participando e apoiando a Marcha das Vadias da Baixada Santista, dessa vez em sua segunda edição, que contou também com o apoio de representantes da Marcha das Vadias de São Paulo. A concentração aconteceu na Praça da Independência, no Gonzaga, e caminhou pela avenida principal da orla da praia (bloqueando o trânsito dos automóveis) até o Parque do Emissário, no José Menino. Dessa vez, após a Marcha das Vadias chegar ao Parque do Emissário, o público se concentrou e ainda aconteceram atividades bem interessantes, como por exemplo: apresentação da rapper feminista Luana Hansen (de São Paulo), apresentação da rapper Preta Rara (de Santos), intervenção poética de garotas anarco-punks, além de microfone aberto com direito a muitos discursos e manifestações públicas.
Quem quiser saber mais sobre essa manifestação, pode assistir ao vídeo abaixo.


No dia 10 de novembro, os companheiros do NELCA subiram a serra para um dos eventos mais importante e esperado do ano: A IV Feira Anarquista de São Paulo. 
As companheiras Liana (NELCA), Elaine e Mahu (Coletiva Marana) e Maria Helena (extinto CAF) falaram sobre suas experiências no Movimento Anarquista e Anarc@Feminista. As companheiras fizeram uma ampla fala à partir de relatos de suas vivências e experiências em grupos anarquistas, Coletivas Anarcafeministas e na Rede Anarcafeminista Obirin Onijá, fazendo uma ponte entre o passado e a atualidade, as companheiras também abordaram as barreiras heterosexistas ainda enfrentadas e os desafios na construção de espaços políticos entre mulheres e lésbicas. Foi falado também sobre o surgimento do termo Anarc@feminista e dos grupos  e Redes do Brasil. Foram expostos fanzines, informativos dos grupos Anarc@feministas da década de 90 até a atualidade.A troca de idéias entre as companheiras e o público foi bem recíproca. Um dia bem reflexivo!!!
Vale mencionar que durante a IV Feira Anarquista de São Paulo, ocorreu o lançamento do livro "Anarquistas no Sindicato: um debate entre Neno Vasco e João Crispim", uma publicação conjunta entre o Nelca e a Biblioteca Terra Livre.


No dia 23 de novembro de 2013, o NELCA organizou a sua última atividade pública do ano na Biblioteca Carlo Aldegheri, dessa vez o nosso convidado foi o professor Carlo Romani, antigo companheiro nosso aqui da Baixada Santista, que falou sobre o tema “Conjuntura brasileira atual & retomada do anarquismo de massa”. Após uma introdução histórica sobre o surgimento do movimento anarquista e o desenvolvimento de suas diversas tendências, o palestrante abordou sobre as atuais manifestações que estão ocorrendo na cidade do Rio de Janeiro e da participação anarquista e dos Black Bloc’s nessas manifestações. A fala de Carlo Romani ajudou ao público presente (que mais uma vez lotou a sala da Biblioteca Carlo Aldegheri, mesmo tratando-se de um sábado bastante chuvoso) a compreender melhor a atual conjuntura das manifestações políticas no Rio de Janeiro.

Essas foram basicamente as atividades públicas que organizamos e/ou que contaram com nossa participação e apoio no ano passado. Para 2014, já temos um calendário de atividades planejadas, esperamos conseguir concretizá-las dentro de nossa programação e desenvolvê-las 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Leituras e resenhas


INFORMAÇÕES:
Título: ANARQUISTAS NO SINDICATO – Um debate entre Neno Vasco e João Crispim
Autor: NENO VASCO e JOÃO CRISPIM
Editora: BIBLIOTECA TERRA LIVRE & NÚCLEO DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS CARLO ALDEGHERI
Idioma: português
Encadernação: Brochura
Dimensão: 18 x 11,5 cm
Edição: 1ª
Ano de Lançamento: Novembro 2013
Número de páginas: 110
Preço: R$20,00
 

Abaixo segue uma resenha do livro feita pelo companheiro Antônio Carlos de Oliveira, membro do Centro de Cultura Social, de São Paulo (CCS/SP), texto este que foi solicitado pelos membros do NELCA. Aos interessados em adquirir o livro, entre em contato: nelcarloaldegheri@gmail.com


ANARQUISTAS NO SINDICATO[1]. Uma revisão necessária!

"As divergências entre libertários tem que ser cordiais. Cada militante deve ter a sua própria personalidade, apresentar os problemas como melhor interpretar, mas disposto sempre a corrigir erros e retificar sempre que se demonstrar o equivoco e a falta de razão. O não compartilhar da opinião dos demais, não estar de acordo com fulano ou beltrano não justifica tirar o corpo e não contribuir com a parte que lhe corresponde na hora de meter o ombro na obra comum" (Fragua Social, nº 24, 10/80 de Jose Hiraldo).
A citação anterior foi uma das primeiras coisas que me veio a mente com a leitura da obra “Anarquistas no sindicato”, o quanto que apesar de Neno Vasco e João Crispim divergirem sobre como deveria ser a atuação dos anarquistas e o papel dos sindicatos, ainda assim, apesar de serem um pouco mais ácidos um com o outro, foram respeitosos e mais, generosos durante todo o debate que se seguiu em jornais sindicais ou anarquistas daqui e do exterior.
Na década de 80 frequentando o Centro de Cultura Social tomamos contato com essa e outras questões desconhecidas e até um tanto “polêmicas” que existiam no interior do movimento anarquista.
Na época questionamos o Jaime Cubero e o Antonio Martinez sobre questões como por que alguns se denominarem libertários ao invés de anarquistas, depois quando organizamos a Liga de Trabalhadores em Ofícios Vários de SP porque a diferença entre anarcosindicalistas e sindicalistas revolucionários.
O Jaime nos explicou que os anarcossindicalistas preconizavam a ação dos militantes anarquistas dentro dos sindicatos para a organização dos trabalhadores para luta por conquistas no campo econômico, o que não diminui sua luta política, mas também para ampliar seu nível de consciência revolucionária e mais, entender essa luta como parte do processo de construção para uma nova ordem social. O ápice dessa luta poderia, por exemplo, ser uma greve geral que culminaria com a organização dos trabalhadores dentro dos seus locais de trabalho caminhando para a autogestão da produção e consequentemente associados a outros trabalhadores também, como formas diferenciadas de autogestão em nível de consumo eliminando o papel do atravessador e do patrão.
Nessa concepção os anarquistas não entendiam o sindicato como parte do movimento anarquista organizado e para evitar maiores resistências não se auto proclamavam publicamente anarquistas, algo inclusive desnecessário uma vez que para além de serem identificados com rótulos deveriam se preocupar em ser reconhecidos pela força e coerência de suas ações.
Segundo ele os sindicalistas revolucionários defendiam que os anarquistas deveriam organizar sindicatos ou influenciar esses para que adotassem as formas de organização e luta dos anarquistas, ou seja, os sindicatos deveriam ser parte do movimento anarquista, utilizariam os mesmos princípios de organização e luta do movimento anarquista organizado.
O tema é polêmico e ambos o reconheciam, mas, também, disseram isso nunca foi impedimento para a ação dos anarquistas nos sindicatos e para que mantivessem para além dessa polêmica, relações de militâncias cordiais e respeitosas, o que nos leva as palavras de Anselmo Lorenzo.
"Vamos procurar aproximarmo-nos mais e entendermo-nos melhor, mesmo que não seja para seguir o mesmo caminho, coisa que nem sempre é possível, mas pelo menos pa­ra chegar ao mesmo tempo e o mais depressa possível ao ponto a que todos nos dirigimos” (Proletariado Militante, Anselmo Lorenzo)[2]
Além da Liga o próprio CCS era um espaço aberto ao publico sem filiação partidária[3], nele pessoas ligadas a diferentes religiões e posições politicas foram convidados para falar, era um espaço publico parte da sociedade civil, mantido e animado por anarquistas.
As paginas dessa obra onde foram tão bem selecionados que os artigos sobre as diferentes posições desses dois grandes militantes anarquistas me levaram a outra recordação colocada na citação que segue:
"... Ainda que seja preciso cercar as obras que eles nos legaram com todo o respeito que elas merecem, creio ser necessário fazer uma triagem impiedosa nos teóricos anarquistas do século passado. E lançando sobre seus textos um olhar diferente daquele do asceta que seremos mais fieis a eles. Uma tarefa urgente, visto que a linguagem que eles empregavam perdeu seu conteúdo original e que e necessário reinventa-la para se fazer compreender pelo homem do século XX agonizante" (pag 08, Reflexões sobre a Anarquia, Maurice Joyeux, Terra Livre e Archipelago, SP. 1992)
Quando a falácia da luta entre capitalistas e comunistas autoritários, que apesar das aparentes diferenças eram absolutamente iguais, segundo os capitalistas foi vencida por eles, os mesmos criaram a ideia “do fim da historia”, do fim da luta de classes o que nunca foi aceito pelos anarquistas, assim, reconhecida a falácia que tantos como Bakunin, Kropotkine, Malatesta e outros por tanto tempo anunciaram, uma enorme tarefa se coloca a nossa frente, o resgate dos documentos e depoimentos daqueles que nos legaram historia do movimento anarquistas no Brasil.
Ao contrario do que a historiografia comprometida com seus interesses de classe ou políticos que negaram ao anarquismo seu verdadeiro papel na historia, tentando caracteriza-lo como “planta exótica” trazida por estrangeiros arruaceiros, ou corrente politica utópica no seu sentido mais negativo como algo irrealizável que pouco fez no Brasil, sendo praticamente extinto ainda na década de 20 do século, ou igualmente correto, no milênio passado.
E como afirma Joyeux e como muito bem faz essa obra é com vontade redobrada de colocar em dia as versões mais coerentes da historia do anarquismo que precisamos dar voz aos militantes do passado, trazer a luz sem negar ou escamotear as dificuldades, polemicas, contradições, erros, bem como as convergências, a solidariedade, a cumplicidade, o ato assertivo, a influencia positiva que os anarcosindicalistas e sindicalistas revolucionários causaram em diferentes aspectos da politica, economia, cultura, etc.
Dessa forma é que manteremos vivo e homenagearemos aqueles que dedicaram sua vida a militância anarquista, afinal o anarquista é o único que não espera redenção divina, reconhecimento intelectual ou satisfação econômica com sua ação, luta porque sabe que lutar é a única opção coerente com o ideal que abraçou.
Também merecem parabéns os companheiros da Biblioteca Terra Livre de SP e o Núcleo de Estudos Libertários Carlos Aldeghieri do Guaruja por essa importantíssima iniciativa, sem duvida estão comprometidos com o resgate e a difusão da historia do anarquismo.
Essa é uma das obras que nesse momento merece ser mais que lida, estudada para que outras versões menos coerentes não venham diminuir o valor e a importância da vida e obra de seus autores.

Antonio Carlos e Oliveira – Historiador e Professor de Historia. Dez 2013




[1] ANARQUISTAS NO SINDICATO. Um debate entre Neno Vasco e João Crispim. Biblioteca Terra Livre e Núcleo de Estudos Libertários Carlos Aldeghieri. SP e Guarujá. 2013.
[2] Poucos dias depois veio o Martins com um papel onde estavam algumas citações sobre a questão das relações entre os anarquistas entre essas a de Jose Hiraldo e a de Anselmo Lorenzo.
[3] Jose Oiticica afirma que os anarquistas enquanto parte de um todo são também uma forma de partido politico, contudo, sem os mesmos objetivos e estratégias para chegar ao controle do poder.