sábado, 14 de julho de 2012

Retornando...


Após longo período sem atualização, retomamos a ativar o nosso blog. Reiniciamos com a proposta de publicar (ou republicar) textos ácratas extraídos de antigos jornais anarquistas publicados no Brasil. Textos retirados de jornais como "A Terra Livre", "A Guerra Social", "A Plebe", "A Lanterna", "Ação Direta", entre outros, visamos com isso divulgar as ideias que os militantes anarquistas antepassados acreditavam e divulgavam, suas propostas, denúncias e doutrinas. Iniciamos com artigos de militantes clássicos como Kropotkin, Faure, Proudhon e Reclus. Além de autores clássicos, visamos também publicar textos de militantes libertários que atuaram em território brasileiro. Segue os textos: boa leitura e reflexão !

                                                                            “A Ordem



Os que acusam a anarquia de ser a negação da ordem, não falam da harmonia do futuro; falam da ordem como ela é concebida na sociedade atual.
Atualmente, a ordem – o que eles entendem por ordem – são os nove décimos da humanidade trabalhando para procurar o luxo, os gozos, a satisfação das paixões mais execráveis, para um punhado de mandriões.
A ordem é a privação para estes nove décimos, de tudo que é a condição necessária de uma vida higiênica, de um desenvolvimento das faculdades intelectuais. Reduzir nove décimos da humanidade a um estado de bestas de carga, vivendo dia a dia, sem nunca se atrever a pensar nos gozos dados ao homem pelo estudo das ciências, pela criação artística – eis a ordem.
A ordem é a fome e a miséria tornadas em estado normal da sociedade. É o aldeão irlandês morrendo de fome; é o aldeão dum terço da Rússia morrendo de difteria, de tifo, de penúria, no meio dos montões de cereais que vão para o estrangeiro. É o povo da Itália deixando o seu campo luxuriante, para vaguear pela Europa, procurando um buraco onde vegete na miséria. É a terra roubada ao camponês, para criação de gado, que servirá para alimentar os ricos; é a terra deixada inculta, de preferência a ser restituída para aquele que não pede mais do que cultivá-la.
A ordem é a mulher que se vende para dar alimento aos filhos, é a criança reduzida a ser encerrada numa fábrica, ou a morrer de inanição, é o operário reduzido ao estado de máquina.
É o fantasma do operário revoltado às portas dos ricos, o fantasma do povo revoltado às portas dos governantes.
A ordem é a minoria ínfima, subida às cadeiras governamentais, que se impõe por esta razão à maioria e que educa os filhos para exercerem mais tarde as mesmas funções, a fim de manter os mesmos privilégios, pela astúcia, pela corrupção, pela força, pelo morticínio.
A ordem é a guerra constante do homem ao homem, de ofício à ofício, de classe à classe, de nação à nação.
É o canhão que não cessa de roncar na Europa, é a devastação dos campos, o sacrifício de gerações inteiras nos campos de batalha, a destruição em um ano de riquezas acumuladas em séculos de trabalho rude.
A ordem é a servidão, o pensamento acorrentado, o envilecimento da raça humana, mantido pelo ferro e pelo chicote. É a morte repentina, pelo grisu, de centenas de mineiros despedaçados ou enterrados todos os anos pela cobiça dos patrões, e metralhados, desde que se atrevam a queixar-se.
A ordem, enfim, é o afogamento em sangue da Comuna de Paris. É a morte de trinta e cinco mil homens, mulheres e crianças, maltratados, enterrados com cal viva nas ruas de Paris.
É o destino da mocidade russa, nas prisões, enterrada no gelo da Sibéria e onde os melhores, os mais puros, os mais dedicados, morrem enforcados.
Eis a ordem.

Piotr Kropotkin

Retirado do periódico anarquista ‘A Terra Livre’ (São Paulo), 12 de Abril de 1906, número 7, página 1, & também do ‘Boletim da Federação Operária do Estado Rio de Janeiro’, Setembro de 1921, número 7, página 3. Publicado originalmente no livro ‘Palavras De Um Revoltado’ (‘Paroles D’Un Révolté’), 1885.


O que nós queremos



Milhões de seres humanos trabalham dez ou doze horas diárias, em odiosas condições em troca de um salário insuficiente.
Milhões de velhos que, durante uns vinte e cinco, trinta e quarenta anos laboriosamente têm formado a riqueza pública e edificado fortunas particulares, estendem as mãos calosas e descarnadas aos transeuntes, ou solicitam a sua entrada para os asilos.      
Milhões de crianças encantadoras e inocentes que precisam do alimento e da cultura indispensáveis.
Milhões de mulheres belas feitas para provocar e gozar o amor procuram no tráfico vergonhoso da sua carne o pão que lhes é necessário.
Milhões de seres vigorosos e belos em vão procuram trabalho e, sem o encontrar, morrem na miséria.
Milhões de jovens são arrancados ao campo, à oficina, à família e aos seus amores, na previsão de matanças incompreensíveis e criminosas.
Milhões de desgraçados aquém a miséria, a ignorância e a opressão forçam fatalmente a infringir a lei feita contra eles gemem nos cárceres e nos presídios.
Toda a pessoa inteligente e de coração deve querer que isto termine.
Intrigantes e ambiciosos, investidos de um mandato pela candidez popular, farsantes e imbecis revestidos de uma função pela complacência governamental, saqueiam, as mãos cheias e sujas, o tesouro público alimentado pelos trabalhadores.
Os ministros de um Deus ridículo apóiam sobre o abandono dos dogmas e a metafísica religiosa, o domínio de uma classe e os privilégios que a acompanham.
Na sua ignorância e no seu hábito de servidão, as multidões aclamam os que as esmagam e exploram; inclinam-se respeitosas ante os grandes que as desprezam ou as adulam e seguem passivamente os conselhos dos anestesiadores e dos que pregam a resignação.
Todos os espíritos emancipados e todos os corações generosos desejam que isto tenha um fim.
Viver, ser ditosos, ser livres... Eis aqui o que nós queremos.
Gozar o bem estar físico assegurado por uma alimentação sã e abundante, boa roupa e uma habitação confortável.
Cultivar a nossa inteligência, desenvolver os nossos conhecimentos, enriquecer o nosso cérebro com novas verdades, regozijar os nossos olhos na contemplação das grandes obras de arte e da natureza, deliciar os nossos ouvidos com o encanto das puras harmonias, estudar com espírito independente os problemas da vida, passear livremente a nossa curiosidade através do mundo das realidades e das observações, pensar o que nos inspira a nossa razão ilustrada e confiar a nossa intrépida língua a expressão sincera do pensamento.                    
Eis aqui o que nós queremos!
E queremos também fundar o mais breve possível um meio social favorável ao desenvolvimento integral da personalidade humana, pelo livre exercício das forças que em nós se agitam e das paixões que nos movem, pelo desenvolvimento moral das nossas afinidades, pela nobre irradiação das nossas simpatias.
É necessário pedir à vida todas as alegrias que ela contém.
Eu sei bem que querer e proclamar isto é expormo-nos a ser tratados como malfeitores.
Que importa!
Propagadores voluntários de uma ideia justa e bela consideramos sem desfalecimentos as consequências da batalha, sendo para nós mais penoso ficar inativos no seio da peleja que correr os riscos próprios da luta.
Se é ser malfeitor querer o fim da miséria, da ignorância e das guerras; se é ser malfeitor preparar o advento de uma sociedade de concórdia, de saber, de abundância e de harmonia, nós somos malfeitores, aceitamos o epíteto e reivindicamo-lo com orgulhosa dignidade.
Abandonem os adversários a esperança de nos desarmar; não somos daqueles a quem se intimida nem a quem se corrompe.
O espírito de independência desenvolve-se e fortifica-se no seio das novas gerações; um sopro de emancipação começa a dar vida a este deserto. O escravo quer conquistar o seu lugar de homem livre. Certamente queremos ser ditosos, mas, pois que é possível, queremos que o sejam todos, porque não poderíamos rir quando os outros choram, cantar quando os outros gemem.
Eis aqui o que nós queremos, com todo o poder da nossa firmeza, com toda a energia da nossa perseverança.
Também o que queres, tu, que me lês? Queres viver, ser ditoso, ser livre? Queres que cada um seja livre, ditoso e que viva?... Sim? – Pois bem, depende de ti, de mim, de todos nós, que esta magnífica aspiração se converta em realidade. Se o queres resoluta e lealmente, despede-te, abandona, se preciso for, família, amizade, posições; foge da atmosfera pestilenta das igrejas, dos quartéis, dos parlamentos, e vem, vem combater livremente no meio dos homens livres.

                                                                                                                    Sébastien Faure

Retirado do periódico anarquista ‘A Guerra Social’ (Rio de Janeiro), 14 de Setembro de 1912, número 27, página 3, & também do periódico anarquista ‘A Revolta!’ (Santos), 14 de Novembro de 1913, número 5, página 1.


O que não queremos


           
Não queremos Estado porque o Estado, pseudo-mandatário é servidor do povo, por procuração geral e ilimitada dos eleitores, mal nasce logo cria para si um interesse a parte, muitas vezes contrário ao interesse do povo; porque, servindo esse interesse, faz dos funcionários públicos criaturas suas, resultando daqui o nepotismo, a corrupção, e pouco a pouco a formação duma casta oficial, tão inimiga do trabalho como da liberdade... 
Não queremos Estado porque o Estado, para engrandecer o seu poder extrapopular, tende a multiplicar indefinidamente os seus empregados; depois, para se os prender cada vez mais, a aumentar-lhes continuamente os vencimentos...
Não queremos Estado porque, quando o imposto já não basta as suas dilapidações, ao desempenho dos seus favores e sinecuras, o Estado recorre aos empréstimos e desfalques, e depois de ter empalmado o dinheiro alheio, ainda acha meio de obter aplauso para as suas rapinas...
Não queremos Estado, porque desejaríamos limpar a sociedade de tudo o que se chama bancarroteiros, usurários, abutres, agiotas, ladrões, gatunos, estelionatários, concessionários, falsários, moedeiros falsos, prestímanos, parasitas, hipócritas e homens de Estado; porque a nosso ver todos os homens de Estado se assemelham e todos são, com gradações, comedores de carne humana, no dizer Catão.

Pierre-Joseph  Proudhon

Retirado do periódico anarquista ‘A Guerra Social’ (Rio de Janeiro), 14 de Setembro de 1912, número 27, página 3


Élisée Reclus Fala aos Jovens

           
Queridos camaradas:

Temos, em geral, o costume de exagerar tanto nossa força quanto nossa debilidade; assim, durante épocas revolucionárias, nos parece que o menor de nossos atos deva ter consequências incalculáveis e, ao contrário, em certo marasmo, toda a nossa vida, ainda que consagrada inteiramente ao trabalho, nos parece infecunda e inútil.
Que devemos fazer então para mantermo-nos em estado de vigor intelectual, de atividade moral e de fé no bom combate?
Dirigi-vos a mim, porque supondes que tenho experiência dos homens e das coisas.
Pois bem, em minha qualidade de ancião, me dirijo aos jovens para dizer-lhes:
Fora as querelas e personalismos. Escutai os argumentos contrários depois de haver expostos os vossos; sabei calar e refletir; não procureis ter razão em detrimento da vossa sinceridade.
Estudai com discernimento e perseverança. O entusiasmo e a abnegação, ainda que até a morte, não são o único meio de servir a causa. É fácil dar a vida; nem sempre fácil conduzirmo-nos de modo que nossa vida sirva de exemplo. O revolucionário consciente não é somente homem de sentimento, é também homem de raciocínio, cujos esforços totais em procura de maior justiça e solidariedade se apóiam sobre conhecimentos exatos e sintéticos de história, sociologia, biologia. É o que pode, por assim dizer, incorporar suas ideias pessoais ao conjunto genérico das ciências humanas e enfrentar a luta sustentado pela imensa força que esgotará em seus conhecimentos.
Evitai as classificações; acima de partidos e pátrias, de proclamar-vos russo, polaco ou eslavo, sede homens ávidos de conhecer a verdade, despojados de todo pensamento de interesse, de toda ideia de especulação ante chineses, africanos ou europeus; o patriota chega a detestar o estrangeiro, a perder o sentimento de justiça que alimenta seu mais puro entusiasmo.
Não vos atreleis a patrão, chefe ou apostolo cuja linguagem seja considerada palavra do Evangelho; fugi dos ídolos e não busqueis mais que a verdade de quando diga o amigo mais querido ou do professor mais sábio. Se, escutando-o conservais alguma dúvida, buscai em vossa consciência e recomeçai o exame para julgar em última instância.
Refugai, pois, toda autoridade, para cingir-vos ao respeito profundo de uma convicção sincera, vivei a própria vida, porem reconhecei a cada um inteira liberdade de viver a própria.
Se vós lançais a luta para vos sacrificardes em defesa dos humilhados e ofendidos, em boa hora, companheiros, afrontai nobremente a morte. Se preferes o lento e paciente trabalho ansiando por melhor provir, melhor ainda convertei-vos no objeto de cada um dos instantes de vida generosa. Porém, se escolheis a pobreza entre os pobres, em completa solidariedade com os que sofrem, que vossa existência irradie a claridade benfeitora, no exemplo perfeito e no fecundo ensinamento.            

                    Saúde, camaradas!

Retirado do periódico anarquista Ação Direta (Rio de Janeiro) –– Outubro e Novembro de 1952, nº83, ano 6, p. 3.

                              







quinta-feira, 5 de abril de 2012

Entrevista sobre "Cultura Libertária" na Rádio da Juventude

No dia 31 de abril, membros do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri estiveram na Rádio da Juventude, em São Vicente, onde juntos com estes companheiros coletivizaram informações sobre "Cultura Libertária", através de uma entrevista/debate. A entrevista pode ser vista, e ouvida, no link abaixo. Seguimos na luta, companheiros!

Reflexão e Ação: Cultura Libertária - Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri

 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Cinema & Anarquia: "Louise Michel: a rebelde"

Realizou-se no dia 17/03/2012 mais uma sessão Cinema & Anarquia, na Cinemateca de Santos, desta vez com a exibição do filme: “Louise Michel: a rebelde”. A escolha deste filme foi em decorrência de duas datas como referências de lutas sociais: o dia 8 de março, dia Internacional da Mulher; e o dia 18 de março, em comemoração aos 141 anos do início da Comuna de Paris. Antes de o filme ser exibido, houve uma rápida apresentação de um militante do Núcleo de estudos Libertários Carlo Aldegheri, narrando uma breve história do dia 8 de março, as contradições de fatos e os mitos que ocorrem em torno desta data, sem esquecer a importância do protagonismo feminino, e realizando na sequência leitura de um poema de Martins Fontes, poeta santista e anarquista, em homenagem a Louise Michel, sendo seguido do filme. Após o encerramento do filme, militantes do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri discorreram sobre a Comuna de Paris e da biografia de Louise Michel, tratando de sua história e a importância da mesma como referência em nossa atualidade. Mais uma vez houve um bom público, que participou do debate com perguntas e apresentação de experiências, o que nos motiva a continuar a acreditar na possibilidade da construção de uma sociedade libertária. Agradecemos aqui a presença dos companheiros do Centro de Cultura Social, de São Paulo, que contribuíram também com a exposição e o debate.

1º Círculo de Ideias e Afinidades Anarquistas

Nossas próximas atividades...


Entrevista com Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri sobre:                 “Cultura Anarquista” – dia 31/03/2012 – 18:30 horas – Rádio da Juventude:
http://radiodajuventude. wordpress.com

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

3 artigos de José Oiticica

Segue abaixo três artigos de José Oiticica: Contra o Sectarismo (1929), O Espírito da Ação Direta (1929) e Federação Anarquista Brasileira (1932). Artigos publicados originalmente nos jornais Ação Direta (os dois primeiros) e A Plebe, textos que tem como princípio a solidariedade entre anarquistas e o fortalecimento do movimento anarquista sem deixar de abandonar as lutas sociais. Vale a leitura e a reflexão.


Contra o Sectarismo
O espírito anárquico é essencialmente avesso a quaisquer fanatismos. Sendo ânsia de liberdade, não pode querer dogmas, nem disciplinas, nem mandamentos humanos ou divinos e, muito menos, inquisições, santos-ofícios, índices e autos-de-fé. Pregando o trabalho livre, o pensamento livre, o amor livre, a ação livre, não aceita nenhuma limitação às faculdades intelectuais ou emotivas, nem reconhece bitolas, cremalheiras, pautas, à exteriorização de idéias ou sentimentos. Só o indivíduo tem o direito de dirigir seu raciocínio, regular sua linguagem, enfrentar seu estilo, moderar seu juízo, orientar sua ação.
O anarquismo combate a todo transe o despotismo de qualquer feição, o feitorismo de toda casta, tudo quanto lembre mandonismo, chefia, canga, subserviência, dominação física, mental ou moral. Assim, repele o regime carcerário do capitalismo, condena as fábricas de doutores, padres, militares, homens vazados num molde único, manequins talhados num só modelo, manipanços cujo enchimento é a mesma palha seca. Só o indivíduo conhece os seus caminhos. Impor, ao que pende para o norte, a marcha para leste, é roubar-lhe o destino, a vida, a personalidade.  
Esses princípios, nós, anarquistas, aplicamo-los rigorosamente na luta pela emancipação dos homens. E, dizendo "dos homens", firo um ponto essencial do anarquismo. O anarquismo não visa apenas a emancipar os trabalhadores, pretende emancipar os homens. Seu problema é muito mais vasto que o dos políticos ou socialistas de qualquer feição. Acima da mera emancipação econômica, está certamente a emancipação moral e mental. Além do trabalho livre, está o pensamento livre e a ação livre.
 Libertar os homens do patrão é muito, mas não é tudo. Cumpre arrancá-lo à tutela dos guias, políticos ou religiosos, e à tirania das "morais", criações de opressores para fanatizar escravos. Destarte, não compreendemos um revolucionário cuja ação promana de uma servidão. Como instituir um regime livre se não nos desvencilhamos das algemas tradicionais? Como pretender uma vida livre, se vivemos impondo regras e ouvindo ordens? Como desejar o homem "pôr si", habituando-nos, a nós e aos outros, a disciplinas vexatórias, censuras obsoletas e punições degradantes?
Mal compenetrados dessa concepção de liberdade, vários anarquistas lamentam as divergências de atuação entre anarquistas. Pior ainda, lêem-se freqüentemente acusações de anarquistas-individualistas a anarquistas-comunistas, de anarco-sindicalistas e extra-sindicalistas, etc., etc. Todos esses ataques e lamentações revelam a tendência sectarista milenarmente entranhada nos homens. Pôr mais que estudemos, aprendamos, eduquemos o espírito, a pressão tradicional é tão forte, o meio ambiente, todo dogmático, registra, engaiolante, é tão rígido, que dificilmente conseguimos nos safar dessas determinantes poderosas.
Pessoalmente, ao contrário, vejo nessas várias tendências anárquicas o melhor sinal de vida do anarquismo. Todos os homens não podem ver as coisas do mesmo modo, nem resolver os problemas pelo mesmo processo. A transformação social é um problema com soluções múltiplas. Nós, anarquistas, apresentamos a nossa. Porém, não a apresentamos do mesmo modo. A beleza da nossa concepção e a superioridade do nosso método estão positivamente nessa multiplicidade de meios, todos conducentes a um mesmo fim. Seja, pois, cada tendência livre na execução do seu modo de entender a solução final. Todas as águas afluentes irão dar na mesma foz.
O verdadeiro anarquista, penso eu, aquele que se libertou totalmente do preconceito sectarista, colabora em todos os grupos, atua em qualquer tendência. Mais ainda, coopera com os não-anarquistas onde quer que a ação deles incremente a oposição revolucionária. Assim, é anticlerical com os anticlericais; é democrático na defesa dos princípios liberais contra os reacionários; está com os bolchevistas, sempre que estes reivindiquem direitos, reforça a ala antimilitarista, ainda que os antimilitaristas sejam burgueses; colabora com a escola moderna racionalista, conquanto não seja senão reformista; anima os teósofos na propaganda fraternista, os vegetarianos na extirpação dos vícios, o próprio Estado Liberal na sua luta contra o imperialismo vaticanista.
Não proceder assim, seria confinar-se ao sectarismo e negar, nos atos, a doutrina anarquista, essencialmente anti-sectária.10.01.1929
José Oiticica - Publicado originalmente no jornal carioca Ação Direta, em 10.01.1929, e republicado em: Oiticica, J. Ação Direta – Rio de Janeiro; Germinal, 1970. p. 96 – 98.



O Espírito da Ação Direta

            Num dos últimos números do jornal anarquista “l’em dehors”, de Armand, em uma fórmula preciosa de onde se resume quanto escrevi no meu artigo Contra o sectarismo. A fórmula está subordinada ao título O consenso anarquista e enfeixa alguns conceitos segundo os quais podem, perfeitamente bem, manter-se acordo, entendimento, boa harmonia, consenso entre os muitos modos de ver a questão social sob o aspecto ácrata.
            Eis a fórmula: “Não caminhar, obrigatoriamente, a passo igual, nem regular, constrangidamente, o teu passo pelo passo do isolado que corre adiante de ti, ou da associação que segue atrás de ti. A cada qual seu ritmo, suas afinidades; a cada qual segundo os termos do contrato de marcha, que tenha livremente assinado. Não se envolver com a cadência do vizinho! Não intervir no andamento do grupo ao lado; não resmungar contra as evoluções daqueles que preferem os margeamentos à estrada larga, os sombreados às clareiras, e vice-versa. Caminho livre a todos os gêneros de marcha: passo de corrida, passo acelerado, passo de passeio, passo sem destino. É esse o espírito do consenso anarquista”.
            Perfeitamente bem. O maior impeço tem sido sempre esse de querer fazer predominar sua opinião, seu modo de ver, sua vontade, sobre a do vizinho, do camarada, do grupo, do sindicato. Esse espírito de independência, aliado ao espírito de retraimento (independência de sua opinião e dos seus atos, retraimento ante a opinião e os atos do vizinho), eis a força real do anarquismo, o seu traço distintivo, o aspecto que o separa fundamentalmente de outros credos revolucionários, calcados na disciplina, no programa único, nos batalhões de ferro, no passo de soldado, em quanto figurino dispersonalizante o vicio burguês inventa e propõe às massas descontentes.      
            Esta legislação social não se limita hoje a um só país, mas ganha terreno em todos os países e encontra sua expressão na atividade da Oficina Internacional de Trabalho de Genebra. As insignificantes melhorias recomendadas em certas cousas para algumas categorias de trabalhadores pelos acordos da O.I.T., ratificados pelos governos, não podem ser comparadas com os incompreensíveis prejuízos produzidos no domínio moral com o aniquilamento do espírito revolucionário, que é a melhor herança das revoluções passadas e pertence aos mais sagrados bens da classe oprimida.              
            Por louvável que seja o esforço por um melhoramento geral da situação do proletariado de todos os países – como, por exemplo, a aplicação internacional de uma jornada de trabalho única e um salário efetivo, igual para os obreiros do mundo inteiro – esforço que é aprovado e apoiado pelo Congresso da A.I.T., Associação Internacional dos Trabalhadores, de orientação anarco-sindicalista – não se deve, por outro lado deixar de indicar que a legislação nacional e internacional é um caminho que não se pode conduzir-nos a esse fim; essa legislação é só o refúgio de um movimento obreiro espiritualmente desagregado.   
            Isso nos faculta a liberdade de nortear a nossa atividade para onde mais sentirmos penderem o nosso espírito e os nossos gostos. Um compraz-se no combate ao clericalismo; outro deseja dedicar-se a edição de panfletos, folhetos, revistas; outro deseja dedicar-se a o anti-militarismo; este revela-se naturista apaixonado; aquele sente-se organizador de sindicatos e grupos; esse outro consagra-se a educação racionalista, etc., etc. E em cada um desses departamentos da atividade acrática, nem todos sentem a luta do mesmo modo: um é de natureza moderado, persuasivo, discutidor; o outro é violento, arrebatado, mais ação que palavras, mais fatos que discursos.
            Com tentar reger esses temperamentos diversíssimos pelo mesmo compasso? Como querer julgar nosso vizinho por nós mesmos? Como sonhar um padrão, um metro, um código para essa espontânea manifestação da revolta e esse fremente treinamento, rumo à emancipação?
            Devemos, pois, na avaliação do trabalho de cada qual, examinar os resultados e concluir se eles são parcos ou nulos, não pela condenação ou menosprezo do camarada, mas pela deficiência dos seus meios e métodos. A experiência de uns será vantajosa para os outros, e evitar-se-ão essas estreitas dissidências, fruto constante da intolerância, restos de um autoritarismo secular, que a tradição, mau-grado nosso, o meio capitalista, infundem ainda ou conservam em nosso subconsciente.  
            A fórmula de E. Armand deve gravar-se na memória de todos os anarquistas e ter lição constante para entendimento mútuo e harmonia entre militantes.

José Oiticica - Publicado originalmente no jornal carioca Ação Direta, em 15/02/1929, e republicado em: Oiticica, J. Ação Direta – Rio de Janeiro; Germinal, 1970. p. 99 – 101.



Federação Anarquista Brasileira

            O grande camarada Nestor Makhno, logo no começo do seu admirável livro sobre a Revolução Russa na Ucrânia, primeiro de uma série acerca do formidável movimento por ele chefiado, conta-nos os seus primeiros planos revolucionários ao sair da prisão, em 2 de março de 1917.
            Diz ele: “Eu estava vivamente preocupado com a insuficiência de minha educação teórica e minha ignorância dos dados positivos que me teriam permitido resolver os problemas sociais e políticos, segundo o modo de ver anárquico. Eu sabia, aliás, que tal sucedia, nove vezes em dez, nos meios anarquistas e que esse triste estado de coisas decorria da falta, entre nós, de toda a organização e também de escolas anarquistas. Não sentia menos profundamente essa lacuna, nem cessava de sofrer com isso. Só me consolava e dava coragem a esperança de que tal estado de coisas não perduraria, eu estava, com efeito, persuadido que o trabalho ao ar livre, dentro de um movimento revolucionário intenso, demonstraria, com evidencia, aos anarquistas a necessidade de criar uma organização poderosa, capaz de  levar a peleja todas as forças anarquistas e organizar um movimento de conjunto, coerente e consciente do fim a atingir”.
            E adiante volta ao assunto: “A fragmentação dos grupos anarquistas existente antes da Revolução, não me satisfazia. Uma tática não baseada na coordenação está condenada a permanecer estéril, dizia eu. É impotente para agrupar as forças dos trabalhadores correlativamente ao entusiasmo das grandes massas revolucionarias no momento dos atos destruidores, da Revolução. Nessas condições, os anarquistas partidários de tal modo de ação devem ou separar-se dos acontecimentos e imobilizar-se na propaganda sectária, ou então arrastar-se na cauda dos acontecimentos, não assumindo mais papeis secundários, trabalhando assim em proveito de seus adversários políticos”. Essa necessidade, imprescindível de uma organização dos anarquistas sentiram-na e sentem-na, mais que todos, os nossos incansáveis companheiros da “Federação Anarquista Ibérica”, na Espanha.
            No seu órgão oficial “El Libertario” de 24 de setembro último, publica José Bonel um artigo intitulado: “Necessidade da organização anarquista”. O artigo refere-se ao dissídio entre anarquistas individualistas e anarquistas organizadores, mostrando a insubsistência do individualismo no embate atual: “A necessidade da organização impõem-se, diz ele. Nada mais lógico e justo, quando há muitos que desejam a mesma coisa, que procurem acordar-se relativamente ao modo de alcançá-la, sobretudo, quando essa coisa está sequestrada pelo Estado, e dispõe de uma série de instrumentos tirânicos e coercitivos, protetores seus. Hoje, dada a situação que atravessamos não é só dever dos anarquistas pensar na organização, mas também cumpre-lhes estruturá-la de maneira que, sem deixar de ser anarquista, mais eficaz se mostre”. 
            Ora, correspondendo a esse anelo, vemos o surpreendente surto da “Federação Anarquista Ibérica” após a destronização de Afonsinho. Só neste ano de 1932, mais de mil associados anarquistas se criaram e aderiram a Federação, adicionando-se a mais de mil outras já formadas o ano passado. De modo que, na Espanha, temos perto de 2500 conjuntos anárquicos articulados num organismo federativo que, sem tirar, a nenhuma das componentes, sua iniciativa, sua liberdade ou seu caráter, as congrega, informa e ilustra para o ataque decisivo.
            Essa necessidade sinto-a eu e de certo sentem todos o anarquistas do Brasil. Eis porque escrevi aos camaradas da Espanha sobre o desejo nosso de promover a Federação Anarquista Brasileira e pô-la em ligação interna com a F.A.I.. Nesta, é bom notar, já se acha incorporada a “Federação Anarquista Portuguesa”, refundição dos organismos anarquistas de Portugal.
            A formidanda atividade revolucionária dos camaradas espanhóis está evidenciando a iniludível alta vantagem de coordenarem-se as forças anárquicas, em que pese ao dissolvente individualismo de alguns camaradas.
            Eis porque abro aqui, na “Plebe”, esta questão propondo a exame este para mim relevantissimo tema, o de uma “Federação anarquista Brasileira” que ligue e coordene todos os grupos libertários do Brasil numa ação de conjunto.
            Rio – 28-11-932

José Oiticica – publicado originalmente em: A Plebe, São Paulo, 17.12.1932, nº4. p. 3