sexta-feira, 3 de maio de 2013

Próxima atividade...


"Zero de Conduta"
O filme retrata às experiências escolares das crianças francesas baseadas nas memórias de Vigo sobre sua própria infância. Retrata um sistema educativo burocrático e repressivo diante do qual os estudantes empreendem verdadeiros atos de rebelião por vezes surreais, resultado de leituras libertárias da infância.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Velhos textos...Novas Reflexões...

O Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri retorna com novidades em nosso Blog, em sua primeira publicação de 2013.
Voltamos ao trabalho de resgatar artigos históricos da imprensa anarquista brasileira e, desta vez, fizemos um levantamento de três textos, de épocas diferentes, escritos por militantes distintas/os, que abordam a questão da participação feminina nos meios anarquistas, assim como seus pontos de vista. Todos esses escritos, à sua maneira, abordam questões históricas e ideológicas de extrema importância em nosso entendimento.
O movimento anarquista começa a se organizar em São Paulo, a partir da publicação do periódico anarquista Gli Schiavi Bianchi em 1892.
O nosso primeiro texto foi escrito por volta de três anos após o surgimento do primeiro periódico anarquista paulista. Ele data de 1895 e foi publicado originalmente no periódico anarquista L’Avvenire, também em São Paulo.
Notadamente escrito por um militante anônimo e intitulado de “A Mulher e a Anarquia”, ele trata da (pouca) participação feminina nos meios anarquistas da época.
Algumas passagens chamam a atenção no texto: o autor, há 118 anos atrás, já reconhece a dupla jornada feminina na sociedade, ao trabalhar para sustentar a família e ao mesmo tempo realizar os afazares domésticos (reforçando que eles não são menos penáveis que o primeiro), destacando que a mulher suporta a parte mais pesada dos encargos sociais. No artigo, o autor conclui que a educação retrógrada que era oferecida à mulher, assim como as condições sociais e econômicas da época, eram os principais obstáculos para sua participação nos meios libertários. O autor incentiva uma maior participação feminina na luta anarquista, dizendo que quando isso acontece “(ela) ergue-se na primeira fila mais enérgica ainda que o homem”. Um texto bastante significativo sobre o assunto, que deve ser lido levando em consideração a cultura e o contexto social da época.
O segundo artigo foi publicado no periódico sindicalista libertário A Tribuna Operária (nome em protesto ao diário comercial A Tribuna), na cidade de Santos, conhecida na época como a Barcelona Brasileira, devida a intensa influência anarquista nas associações operárias dessa época. Escrito por uma militante chamada Iris, o texto trata da importante questão da organização dos trabalhadores, ressaltando que essa é a maneira mais eficaz para enfrentar problemas como as longas jornadas de trabalho, os baixos salários, a competição no mercado de trabalho, o desemprego, a miséria, a ignorância, entre outros males próprios do sistema capitalista.
O terceiro escrito foi publicado na primeira fase do periódico anarquista Ação Direta, no Rio de Janeiro, em 1929. A autora, Ida Fontes, durante o decorrer de todo o texto demonstra um profundo e impressionante conhecimento da ideologia anarquista, que pode levar muitas pessoas nos dias de hoje à rever certos conceitos. Comparando o individualismo anarquista com o coletivismo anarquista, um tema polêmico inclusive para os dias de hoje, Ida Fontes chega à conclusões que certamente surpreenderão muitas pessoas.
Desejamos uma boa leitura à todos/as companheiros/as, contamos que as pessoas façam comentários sobre os textos para contribuir no debate (consideramos que essa é a parte mais importante no resgate desses escritos históricos) e, informamos, que em breve vamos publicar outros textos da imprensa anarquista brasileira.
Avante com o livre debate sobre a ideologia anarquista !!!



A Mulher e a Anarquia
Na sociedade atual a mulher suporta a parte mais pesada dos encargos sociais.
Enquanto o homem luta e pena a fim de trazer para casa o necessário, à mulher incumbe todo o fardo dos trabalhos domésticos – que não são os menos penáveis – a isso se juntam todas as funções da maternidade e a responsabilidade de resolver um problema, as mais das vezes inextricável, gastar sem pedir fiado ou emprestado. E ainda acresce quando o salário do homem é insignificante, a necessidade de deixar o lar e procurar fora um trabalho mais ou menos remunerador.
Neste viver pungente e opressivo, um certo fanatismo se apodera dela e lhe faz aceitar com resignação a sua sorte; e se por vezes a revolta lhe sobe ao cérebro, este mercê de uma longa inação não resiste ao choque e a razão hesitante é inapta para seguir a reta linha da lógica.
Algumas vezes, contudo, heróica e sublime na sua revolta, exalta-se a sua cólera, com todos os sofrimentos, com todas as duras privações deste tanto tempo passadas, e vemo-la então erguer-se na primeira fila mais enérgica ainda que o homem.
Mas, geralmente, um grande desânimo a invade ao pensar no gigantesco esforço que é preciso tentar para demolir o edifico, cuja massa enorme a esmaga.
A essa que sabe quanto o governo da casa é dificultoso, horrorizá-la a expectativa de uma luta, cujo termo acha incerto e que, qualquer que seja o resultado, lhe parece dever agravar a sua miséria.
A sua visão, menos larga que a do homem, é de caráter imediato. Se o combate de amanhã lhe dá de causar a falta de pão em casa que lhe importa a abundância entrevista para depois de amanhã ?
O homem tem, pois, de atuar sozinho, sem o benéfico apoio, nas horas de fraqueza, de uma coragem igual no coração da sua companheira. Ainda mais, nesses momentos tem de lutar duplamente, contra si e contra a deprimente influência da sua querida amiga !
Ah, se soubesses, mulheres, que dor é a nossa quando após alguns anos e esforços para elevar a nossa alma à altura do nosso ideal, logo um nada, uma palavra destrói todo esse trabalho penosamente realizado e nos faz constatar a inanidade das nossas esperanças !
Porque é assim que amamos nós, os anarquistas.
É um despedaçar do coração para nós, ver-vos tão distantes e sentirmo-nos dissuadidos, pelo fato da vossa educação retrógrada, da ideal felicidade de uma confiança recíproca e de um comércio paralelo de idéias e de sentimentos.
Porque, na luta sem quartel, necessária para a realização da nossa comum felicidade, há de ser preciso empregar parte das nossas forças em trazer-vos a reboque e em vencer a vossa obstinação de ficar para trás ? É a política que vos aborrece ?
Mas não se trata de política; não se trata de modificar a forma do governo, de colocar este ou aquele no poder !
O nosso objetivo é mais vasto. O que nós pretendemos é a nossa felicidade, a vossa e a demolição de um edifício de preconceitos, de mentiras convencionais, de desigualdades flagrantes, de uma organização despótica e injusta que sobre vos pesa ainda mais que sobre nós e vos avilta, é a destruição da mentira que impera no lugar da verdade, é o desaparecimento desta vergonha – a prostituição, é o desenvolvimento do indivíduo na livre natureza pelo prazer de viver e de amar, é o advento da harmonia e do amor, sustentadas pela liberdade e pela confiança mútua.
E então, altiva e livre, igual ao homem, não já fêmea, mas mulher, tu serás, em toda a beleza da palavra – a sua companheira !
Queres isto ? Pois bem; sê conosco. 

Retirado do periódico anarquista “L’Avvenire” (São Paulo), 24 de Fevereiro de 1895, número 8, página 2.


 A Organização

Analisando detidamente o desenvolvimento que se vem operando em todos os ramos da atividade humana, desenvolvimento esse que só contribui em benefício de uma pequena parte, de indivíduos, convencer-nos-emos de que uma necessidade imperiosa se apresenta para que os trabalhadores procurem não obstar esse desenvolvimento, mas fazer com que ele não venha somente beneficiar uma pequena parcela dos humanos, mas sim a toda a humanidade.
O braço trabalhador diariamente está sendo eliminado, a ciência todos os dias apresenta novos processos sempre tendentes a proporcionar aos povos o modo mais fácil e menos fatigoso de obter o  necessário para o próprio sustento. Acontece, porém, que esses melhoramentos longe de vir beneficiar o povo, vem cada vez mais atirá-lo para a miséria.
O capital é quem deles se utiliza para realizar as suas especulações, promovendo a concorrência de braços que grandes e proveitosos lucros lhe traz, pois os trabalhadores reduzidos quase ao nada, sujeitam-se a todas as condições de trabalho mal remunerado e prolongado, vexames e insultos, tudo, enfim, suportam e aceitam, pois não querem morrer de fome; a desocupação e a falta de trabalho é triste, pois, traz como consequência a falta de pão para alimentar seus pequeninos filhos, a falta de teto onde abrigar a família, cuja, existência é cheia de privações de penas.
A grande maioria dos trabalhadores assistem com indiferença e impassibilidade a todo esse contínuo crescer da própria miséria, sem observar que esta todos os dias se acentua, e essa impassibilidade terá consequências bem funestas.
A continuar assim não tardará o dia em que a família trabalhadora reduzida a condição de besta de carga, nem sequer o direito de trabalhar terá, e por consequência tampouco o direito à vida.
Parecerão exagerados esses conceitos, mas assim não é, o regime capitalista dispõe de grandes elementos, que os trabalhadores cegos e ignorantes lhe entregaram sem perceber que estão entregando o punhal para as mãos do próprio algoz, para que o assassinem!!!
Ele criou uma infinidade de instituições e todos os dias inventa outras.
E os trabalhadores, ingênuos, inexperientes e tolos, para elas concorrem, dando-lhe vida, não percebendo que elas representam um instrumento de opressão nas mãos do capitalista. Um escritor já o disse, a exploração do capitalista está baseada na ignorância do proletariado, e é bem verdade; é na cegueira e no negro obscurantismo que impera entre os trabalhadores, que o abutre capitalista assenta o pedestal, e ele está convencido de que, enquanto os trabalhadores forem ignorantes, despreocupadamente poderá continuar no conforto e no bem estar, manda semear essa ignorância a mão cheia pelas instituições, tarefa essa que se torna muito fácil, pois têm sempre boa aceitação por parte dos trabalhadores.
Há um meio, há uma arma poderosa que esse triste futuro não se realize: meio e essa arma é a organização. Os trabalhadores organizando-se, reunindo as próprias forças podem se opor a todas as injustiças que contra eles se cometem: organizando-se, poderá ir obtendo todas as melhoras que as suas condições de vida exijam, como seja: aumento de salário e redução das horas de trabalho, que é incontestavelmente a conquista mais lógica que o proletariado possa fazer, pois ela, além de vir eliminar a concorrência de braços, assegura também uma vida mais humana pelo trabalho prolongado.
Organizando-se, enfim, os trabalhadores terão os mais benéficos e proveitosos resultados, pois no seio da organização se adquirem energia e altivez, e espírito da luta e da solidariedade, todas as boas qualidades, enfim, do homem perfeito consciente e preparado a lutar, para saber viver numa sociedade.
É necessário, pois, fazer tudo para a organização; é preciso difundir a sua necessidade, fazendo vibrar na alma do operariado cego, passivo e resignado o instinto associativo.
Não esmoreçamos neste sentido, todos nós que temos esses conhecimentos; dediquemo-nos a essa obra com constância e tenacidade, pois só assim não se apresentará um porvir para o proletariado, mas, ao contrario, um porvir de luz, de bem e de amor.

Por Irís, retirado do períódico libertário "Tribuna Operária" (Santos/SP), em 07/08/1909, número especial, p. 1.

   

“O Que É Preciso Dizer”

É preciso muita má vontade para afirmar que os anarquistas individualistas desejam ver os sindicatos fechados, os operários desorganizados, desunidos, entregues ao despotismo da burguesia. E digo que é preciso má vontade, porque não há ninguém que não reconheça o valor da solidariedade humana, a qual, sendo uma necessidade social, é também uma necessidade moral e satisfazendo-a o homem atende ao natural desejo de ser útil aos seus semelhantes, de prestar-se para alguma coisa.
Que os trabalhadores se unam e procurem com isso lutar contra a prepotência do patronato e coisa cuja conveniência ninguém discute. E nunca o individualista foi adverso a esse sistema de luta, como se pretende. Contra o que se insurge, o que procura defender-se, é contra a absorção da sua personalidade pelo ambiente trabalhista.         
Às vezes, os interesses da coletividade vão de encontro as convicções ideológicas do indivíduo. Colocado nesta conjuntura, o individualista sacrificará, sem hesitar esses interesses, conservará imaculada a integridade dos seus princípios, o coletivista pelo contrário, porá os interesses da coletividade, acima dos seus ideais. Este um dos pontos principais, o mais característico talvez, em que assenta a diferenciação de ambas tendências.
Aqueles que afirmam que o sindicalismo não tem a faculdade de absorver elementos nossos em detrimentos dos ideais, deveriam considerar melhor, os fatos de todos os dias. Quando no cérebro do anarquista se forma a idéia fixa de arregimentar massas, quando sente a necessidade de reunir um grande número de trabalhadores, a preocupação de conseguir adeptos o torna cego a tudo o mais. Ele vai pouco a pouco, insensivelmente, cedendo parte das suas convicções e da sua firmeza de propagandista ácrata. Primeiro, é para atrair associados para a organização desejada, depois para conservá-los, mais tarde para não os desgostar, e afinal, a coletividade inconsciente anula a unidade consciente, domina-a, deixando-a reduzida a uma condição deplorável.
Poderíamos citar inúmeros casos de anarquistas ou coisa que o valha, que tem impedido por toda forma a propaganda anarquista dentro do seu sindicato, por julgarem que este ficaria prejudicado com isso.
Estas coisas e outras semelhantes, fazem-nas aqueles que se deixam empolgar pela teoria que concede valor máximo ao número.
E os que não pensam como eles, os que pretendem que o ideal seja colocado acima de tudo, os que querem os sindicatos como escolas onde os trabalhadores adquiram noções que os tornem homens de proveito, conscientes do próprio valor e dignidade, e não como túmulos de idealismos nos que se enterrem vontades e caracteres, a esses se lhes move uma guerra absurda e se os combate sem lhes estudar os propósitos.
Já tive ocasião de me referir a diferença que existe, na prática, entre as duas correntes em evidencia, reduzindo a questão a uma simples operação aritmética.
Dizem os coletivistas: “a vários zeros reunidos basta pôr uma unidade a esquerda, isto é, a frente, para obter um milhão”. Dizem então os individualistas: “de acordo; mas no dia em que essa unidade faltar, o milhão tornará zero, até que entenda de aparecer outra unidade. E de acordo com o que essa unidade quiser o milhão se movimentará para um lado ou para outro, para a boa obra ou para a deletéria, tanto faz.”
Pensamos então: se em vez de um aglomerado de zeros, tivéssemos um conjunto de unidades o produto total aumentaria consideravelmente, teríamos no caso 1.111.111. E aqueles que teimam em ligar importância capital ao número aceitariam a evidencia de um lucro de 111.111 que não é quantia para desprezar.    
Mas não é isso o mais importante: o que importa saber é que no dia em que faltasse uma dessas unidades, o conjunto diminuiria, mas não deixava de existir. E mais ainda: que sendo 1.111.111 de cérebros a pensar em vez de um único, e havendo outras tantas vontades conscientes em ação em vez de um só, a obra conjunta deveria ser, forçosamente superior.   
Essa preocupação em desejar uma multidão anônima para dirigir, uma grande massa, sem vontade própria para orientar, é, perdoem-me a franqueza, uma reminiscência do espírito autoritário que herdamos dos nossos avôs, os conquistadores; é o ditador que dormita em nosso subconsciente e que despertará ao primeiro toque de rebate.
Nem sempre nos apercebemos desta verdade e atravessamos a vida a embalar em nosso seio uma víbora que morderá a consciência ao primeiro descuido, tornando-nos inimigos dos nossos semelhantes, perpetuadores de um estado de coisas que deve ser destruído.       
Não vale o argumento que já me foi apresentado, de que o sindicato “reprodução da humanidade em ponto pequeno” é uma orquestra, na qual cada músico tem a sua parte, mas a que é indispensável, o mestre para dirigir a harmonia do conjunto. 
A orquestra valerá sempre pelo valor individual de cada músico e se estes forem detestáveis o maestro não conseguirá nunca obter a harmonia desejável.
O maestro, a meu ver, é uma entidade de valor, sim, mas de valor igual ao de cada músico. O seu papel de harmonizar não pode de maneira nenhuma, ser considerado superior ao de interpretar. Mesmo porque, sem maestros e ainda sem orquestra, a Música não deixaria de existir. É até nas interpretações individuais que o espírito sente se arrebatar em elevados transportes, mergulhando no resplendor da verdadeira Arte.
Porque não dar a cada coisa e cada ser o seu justo valor? Porque elevar alguns aos píncaros de uma exaltação perigosa, e reduzir os mais a uma anulação deprimente?
Porque ao faltar o maestro, a orquestra deverá dissolver-se e cada músico arrumar para o canto o seu instrumento? Porque não poderá cada músico ser capaz de tornar-se um maestro quando a ocasião o reclamar?        
É isto que se pretende e que a cegueira de adversários que nos combatem sem querer deter-se ante os nossos propósitos, não deixa compreender, que cada individuo trabalhe com afã educando a sua mentalidade e a sua vontade para fazer de sua pessoa uma unidade consciente uma individualidade de valor. É que, dentro ou fora do sindicato, aonde quer que se encontre, mantenha de pé essa individualidade, a independência de caráter, a sua vontade regida apenas pelo raciocínio. Ninguém poderá contestar que uma coletividade composta de indivíduos desse proceder, seria uma coletividade superior.
Podemos citar fatos concretos: enquanto certos sindicatos formados por uma multidão amorfa de seres sem vontade própria e que não sabem o que tem a fazer porque não sabem o querem, aparecem e desaparecem como meteoros, dando luz fugaz e nem sempre brilhante e tantos outros que mudam de cor, de orientação, ao primeiro revés, nós vemos que naquelas agremiações aonde os associados são pessoas que aprenderam a pensar e agir por conta própria, aonde cada membro é uma vontade em vibração, acontece justamente o contrário. A União dos Operários em Construção Civil, por exemplo, vem mantendo através de vários anos uma norma de conduta que prova quanto diferem os conjuntos de homens mais ou menos conhecedores do que desejam, do que querem, dos que são formados apenas por um aglomerado de inconscientes sem personalidade.
Essa união tem resistido aos maiores embates da reação, tem visto os seus mais ativos militantes deportados, perseguidos, assassinados até. E os claros deixados por esses militantes tem sido preenchidos imediatamente, a entidade social tem continuado sempre a manter a atitude serena e firme de quem sabe para onde vai e que nada a fará desviar do caminho traçado.
Nós a temos visto ressurgir após as represálias, reduzida, com um número pequeno de sócios, mas sempre com relativa facilidade, certa do próprio valor e sempre moralmente forte. Por quê? Já o disse: porque os seus associados são em sua maioria indivíduos que não mantém, dentro da associação a mentalidade de ovelhas de rebanho a espera de um pastor que as dirija. Cada qual por si mesmo procura criar um “eu” muito seu, independente, que agirá dentro ou fora da organização operária, conforme as necessidades da luta, mas obedecendo sempre as concepções próprias, sempre manifestando o valor da própria personalidade.
E, felizmente, não é essa União a única associação operária que assim procede. Há mais algumas ainda, para gáudio dos que sonham com a verdadeira emancipação dos trabalhadores. 
Que os políticos e demais pescadores de águas turvas, considerem o valor das agremiações operárias pelo número de sócios, e o valor da mentalidade obreira pelo número de agremiações, sejam elas quais foram, explica-se. Mas que os anarquistas pensem da mesma forma, não se explica muito.
Para o anarquista, o sindicato poderá ser um meio de luta, mas não é o único meio, nem este o deve absorver.
Quando a ação dos anarquistas nos sindicatos não se possa fazer sentir na propagação dos seus ideais, única mira que os pode ai levar, é razoável que eles se afastem e vão procurar outro campo apropriado.
Sindicalismo e anarquismo podem andar unidos e assim deveriam andar sempre, para bem dos trabalhadores. Mas é preciso reconhecer que não são a mesma coisa. E quando o anarquista tiver que optar por um deles, seria lógico que optasse pelo anarquismo, não lhes parece?
Reunião de valores? Solidariedade entre pessoas afins para a conquista de um ideal comum? De pleno acordo. Mas arregimentação de massas inconscientes, formação de pobres rebanhos que não pensam nem sentem senão através de um pastor, seja este embora o mais bem intencionado dos anarquistas, não, tenham paciência, isso não é obra anárquica!
                 
Por Ida Fontes, retirado do periódico anarquista “Ação Direta” (Rio de Janeiro), 10 de Janeiro de 1929, número 3, página 2.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Cinema & Anarquia

Mais uma atividade do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri, retomando sua atividade coletiva com a cinemateca de Santos!




EVENTO EM HOMENAGEM À LUTA INTERNACIONAL DAS MULHERES – 23 de Março de 2013, Sábado, às 18 horas, na Cinemateca de Santos, Rua Xavier de Toledo, número 42, Bairro Campo Grande, Santos/SP. Exibição do Documentário: “Emma Goldman, uma mulher muito perigosa” (Diretor Mel Bucklin, Boston/EUA, Legendado) + Roda de conversa sobre “Anarco-feminismo na atualidade” com o Coletivo Minas Terrestres & Coletivo Marana (São Paulo). Entrada Gratuita!!! VOZES FEMININAS DA REVOLUÇÃO !!!


Tod@s estão convidad@s! Compareçam!


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Têm Punk na Baixada?


TÊM PUNK NA BAIXADA SANTISTA ??? – Dia 2 de Março de 2013, Sábado, às 17 horas, na Biblioteca Carlo Aldegheri, Rua Luiz Laurindo Santana, Número 40, 1º Andar, Sala 1, Bairro Ferry Boat, Guarujá/SP, haverá a palestra: “Uma visão sobre o movimento punk e anarquista na cidade de São Paulo, entre 1980 à 1995”, pelo professor Antônio Carlos de Oliveira graduado em História pela PUC/SP, organizador do Arquivo do Movimento Punk (USP) & autor dos livros “Os Fanzines Contam Uma História Sobre Punks” (Editora Achiamé) & “Projetos Pedagógicos – Práticas Interdisciplinares” (Editora Avercamp). Entrada Gratuita ! FORTALEÇA A CULTURA LIBERTÁRIA !!!




PARA QUEM VIER DE SANTOS OU OUTRAS CIDADES: É só atravessar a Balsa de Santos (Ponta da Praia – Ferry Boat) para o Guarujá. Pegando a Avenida Principal (Avenida Adhemar de Barros), ir até o Posto de Gasolina Shell. Do lado desse Posto está a Elétrica Aurora. A Biblioteca fica em cima da Elétrica Aurora!!! Fortalecendo & Difundindo A Cultura Libertária !!!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Longe do virtual... Próximo do real


Distantes de nosso blog por um longo tempo, retornamos, informando que essa distância foi em decorrência de ações práticas, ações estas visando uma melhor atuação para a propagação e difusão do ideário ácrata, estreitando os laços de contato e, assim, divulgando o anarquismo em diferentes locais.
No mês de agosto, no dia 18, distante da região litorânea, o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri migrou cerca de 450 quilômetros, para a cidade de Bauru, onde em conjunto com os/as responsáveis pelas atividades do Cine Extinção foi exibido o documentário “Viver a Utopia” (1997), documentário este que trata da história da Revolução Espanhola, a partir da memória de militantes anarquistas, que vivenciaram e participaram daquele momento histórico. Seguindo a prática da sessão “Cinema & Anarquia” que realizamos na Baixada Santista, ocorreu uma rápida exposição seguida de debate, sendo apontada a importância da memória histórica em relação à Revolução Espanhola tendo nesta prática a reflexão e criação de perspectivas futuras, compreendidas a partir dos erros e acertos daquele evento histórico. A sessão contou com a presença de um público considerável e empolgado com as idéias libertárias, que participou ativamente do debate.


No dia 30 de setembro de 2012, aconteceu em Santos a primeira Marcha das Vadias da Baixada Santista, que contou com o apoio e a participação do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri.
O nome curioso para alguns e ofensivo para outros, na verdade surgiu como uma resposta sarcástica ao discurso de um policial que, em uma palestra sobre segurança na Faculdade de Direito “Osgoode Hall Law School” (Canadá), disse que as mulheres deveriam evitar “se vestir como vadias” para que não fossem vítimas de violência sexual. A declaração gerou uma onda de revolta, que culminou na primeira Marcha das Vadias, ocorrida em Toronto, em 3 de abril de 2011. De lá, o movimento rapidamente se espalhou por todo o mundo, com Marchas em lugares tão diferentes entre si quanto Austrália e Índia. No Brasil, a primeira Marcha das Vadias aconteceu em São Paulo, no dia 4 de junho de 2011.
Na Baixada Santista, o movimento que se definiu como feminista e apartidário, teve como objetivo protestar contra as agressões físicas, psicológicas, sociais, culturais e morais as quais as mulheres são submetidas todos os dias, ressaltando que, em muitos casos, as próprias mulheres acabam sendo culpabilizadas por toda essa violência machista e sexista da qual, na verdade, são vítimas.
A concentração aconteceu na Praça da Independência, no Gonzaga, e caminhou pela avenida principal da orla da praia (bloqueando o trânsito dos automóveis) até o Parque do Emissário, no José Menino, onde terminou com alguns discursos. Durante toda a manifestação houveram discursos através de um carro de som, músicas e palavras de protesto, além de muitas faixas, cartazes e panfletagens.
A primeira Marcha das Vadias da Baixada Santista, reuniu entre 100-150 pessoas e também conseguiu chamar a atenção de vários meios de comunicação da região, que registraram o evento.
Alguns vídeos estão disponíveis na internet, aqui estão dois vídeos: 




Em 8 de novembro, o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri, subiu a serra, para participar do Colóquio Internacional “Educação Libertária: 100 anos da Escola Moderna de São Paulo”, atividade que foi realizada na Faculdade de Educação da USP e organizada pelos/as companheiros/as da Biblioteca Terra Livre. Participamos do debate Grupos de Estudos como Práticas de Auto-Formação e Militância, participaram junto a nós deste debate os/as companheiros/as dos seguintes coletivos: Ativismo ABC (Santo André), Biblioteca Terra Livre (SP) e Grupo de Estudios José Domingo Gómez Rojas (Chile), o debate foi precedido da palestra do professor Antônio Romera Valverde, intitulada: Autodidatismo: Teoria e prática de Educação Anarquista. Em nossa exposição apresentamos nossa proposta de estudos, nossas preocupações, motivações e experiências que nos levaram a formação do nosso núcleo de estudos e as perspectivas da nossa prática. Houve um grande público, mas infelizmente uma pequena participação do mesmo durante o debate. 


Sendo a anarquia considerada por muitos uma utopia, para nós anarquistas essa significação de utopia resume-se na concepção de que nossos sonhos e projetos são necessários, pois são eles os combustíveis que alimentam e fortalecem nossos desejos, são através deles que podemos pensar, buscar e criar uma nova realidade, em outras palavras, eles são necessários para uma nova criação de nossa existência.
Partindo desta concepção, desde o mês de outubro, o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri vem materializando um velho projeto de todos/as envolvidos/as, que estavam dispersos/as e em locais diferentes e talvez até distantes, mas que ao se encontrarem, ao se organizarem, ao se identificarem tornou-se realidade. Foi com grande prazer e contentamento que localizamos e alugamos uma pequena sala, que é nossa sede e nela está também nossa Biblioteca, visando atender aos pesquisadores, militantes, interessados e curiosos, enfim, está aberta visando propagar e difundir o anarquismo, mantendo suas portas abertas nos momentos de atividades para todos/as, sejam anarquistas ou não.
No dia 14 de novembro, houve uma pré-inauguração da Biblioteca Carlo Aldegheri, com convites limitados apenas para as pessoas mais próximas de nosso projeto, devido nossa Biblioteca encontrar-se ainda em fase de mudança e organização. Neste pequeno evento houve palestras ministradas por um companheiro do grupo Henry Poulain (França) e por outros dois companheiros do Grupo de Estudios José Domingo Gómez Rojas (Chile), onde os mesmos discorreram sobre a história do anarquismo e sua contemporaneidade nos devidos países. Foi um evento bem interessante, onde além de conhecer um pouco mais a trajetória do anarquismo no Chile e na França, também nos foi possível obter informações precisas das atividades anarquistas atuais em ambos países, trocar experiências concretas (tanto em contextos similares, quanto em contextos distintos ao nosso) e estreitar ainda mais o contato com os/as companheiros/as. Vale mencionar que estes companheiros/as foram convidados/as a conhecer nosso espaço e realizar suas falas devido à passagem dos/as mesmos/as no Brasil em decorrência da realização da 3º Feira Anarquista de São Paulo.


Em 8 de dezembro, finalmente, foi com grande contentamento que materializamos nosso antigo projeto, com a inauguração da Biblioteca Carlo Aldegheri. Visando ser um espaço de socialização de ideias e experiências, difundindo os ideários libertários e assim buscando possibilidades de transformação da realidade, refletindo as preocupações sociais numa perspectiva ácrata, sendo ao mesmo tempo, um local de estudo da história, filosofia, sociologia, literatura e cultura anarquista, um local propício para a formação de novos/as militantes e para o aperfeiçoamento de seus próprios membros e demais militantes que já estão na luta. A inauguração contou com a presença de companheiros/as de São Paulo, São Vicente, Santos e Guarujá (estiveram presentes companheiros/as da Biblioteca Terra Livre, do Centro de Cultura Social de São Paulo e da Rádio da Juventude de São Vicente), que puderam presenciar a brilhante palestra ministrada pelo companheiro Sérgio Norte, intitulada “Muito prazer, Anarquia!”, em que discorreu traçando a trajetória das diversas atuações libertárias em distintos momentos históricos, sendo uma ótima introdução sobre o saber e viver anarquista. Abaixo deixamos o link do áudio dessa palestra, que foi gravada pelos/as companheiros/as da Rádio da Juventude e aqui postamos para socializar a experiência com aqueles que estiveram ausentes:


Agora que 2012 vêm chegando aos seus momentos finais e, sendo assim, 2013 será um ano que almejamos seguir na nossa luta e desenvolver uma série de atividades, as mais diversas possíveis (como mostra de filmes, palestras, cursos, além de outras...) e tendo agora a Biblioteca Carlo Aldegheri como um instrumento e espaço a mais como forma de ação e expressão anarquista, sendo assim, convidamos a todos/as interessados/as a se solidarizar, participar, colaborar e atuar junto conosco, pois é caminhando juntos que poderemos ser e formar homens e mulheres novos/as e assim alcançarmos o tão sonhado Mundo Novo. No mais, SAÚDE & ANARQUIA!

Informamos que em breve retomaremos a postagem de novos “velhos” textos.    



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Inauguração Biblioteca Carlo Aldegheri

 
Dia 08 de Dezembro de 2012, às 17:30 horas, Inauguração da Biblioteca Carlo Aldegheri, na cidade de Guarujá (São Paulo), Rua Luiz Laurindo Santana, Número 40, 1º Andar, Sala 1. PARA QUEM VIER DE SANTOS OU OUTRAS CIDADES: É só atravessar a Balsa de Santos (Ponta da Praia – Ferry Boat) para o Guarujá. Pegando a Avenida Principal (Avenida Adhemar de Barros), ir até o Posto de Gasolina Shell. Do lado desse Posto está a Elétrica Aurora. A Biblioteca fica em cima da Elétrica Aurora. MAIS: Palestra do Companheiro Sérgio Norte intitulada "Muito prazer, Anarquia!". falando sobre as Idéias Anarquistas !!! Fortalecendo & Difundindo A Cultura Libertária !!!
ATENÇÃO: Não precisa pegar ônibus do lado do Guarujá !!!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Luta de Classes Ou Ódio Entre As Classes ?

Esse texto pouco conhecido do ilustre anarquista italiano Errico Malatesta (1853-1932), aborda sua visão sobre a questão operária e a luta de classes, diferenciando essa do ódio entre as classes sociais. Esse artigo causou muita polêmica na época em que foi escrito e, sendo ainda hoje, uma questão que causa muita discussão nos meios libertários, talvez ajude no debate atual sobre esse assunto. Leiam & Reflitam & Comentem !!!

"Povo & Proletariado – Luta de classes ou ódio entre as classes?"


 ERRICO MALATESTA

Eu pronunciei, na presença dos juízes de Milão, algumas palavras sobre a luta de classes e sobre o proletariado, palavras que tiveram a virtude de suscitar críticas e exclamações. Acho conveniente dizer mais alguma coisa sobre o assunto.
No tribunal protestei indignadamente contra a acusação que me faziam de “eu ter incitado o povo ao ódio”. Expliquei, então como na propaganda das minhas idéias tinha procurado sempre demonstrar que os males sociais não dependem da malvadez deste ou daquele patrão, deste ou daquele governante, mas sim da instituição do próprio patronato e do governo, e que, portanto, não se podem remediar os males mudando as pessoas dos dominadores – o que é necessário é destruir o principio da dominação do homem pelo homem. Afirmei também que sempre tinha insistido no fato de que, pessoalmente, os proletários não são melhores do que os burgueses. E a prova é que quando por qualquer circunstância um operário consegue atingir uma posição de riqueza e de mando, se conduz geralmente como um burguês ordinário e dos piores.
Essas declarações foram adulteradas, confundidas e publicadas na imprensa burguesa; e compreende-se muito bem que assim tinha sucedido. A imprensa subvencionada para defender os interesses da política e dos tubarões tem por dever de ofício de esconder a verdadeira natureza do anarquismo, dando credito à lenda do anarquismo odiento e destruidor. E faz isto por exigências do ofício. Devemos convir, porém, que amiúde procede assim, de boa fé, por pura e simples ignorância. Desde que o jornalismo, que foi um sacerdócio, passou à condição de indústria e de ofício, os jornalistas não só perderam o senso moral como também a honestidade intelectual, que consiste em não se falar daquilo que não se sabe.
Deixemos, porém, os venais no lodo e falemos daqueles que, embora divirjam de nós nas idéias e, freqüentemente, só no modo de exprimi-las, são os nossos amigos porque caminham para o mesmo fim que nós caminhamos.
Nestes indivíduos a estupefação é completamente injustificada até ao ponto, que não me repugna acreditar, de julgá-la afetada. Eles não podem ignorar que eu venho dizendo e escrevendo estas coisas há cinqüenta anos; e que, comigo e antes de mim, as disseram e repetiram centenas e milhares de anarquistas.
Mas vamos ao desacordo. Existem os ‘proletários’, isto é, os operários que julgam que pelo fato de terem calos nas mãos, isso significa uma divina infusão de todos os méritos e de todas as virtudes, e que protestam, se alguém tiver o atrevimento de falar do povo e de humanidade, esquecendo-se de jurar sobre o sagrado nome do proletariado.
É verdade que a história fez do proletariado o instrumento principal da próxima transformação social. Assim, aqueles que lutam pelo advento duma sociedade na qual todos seres humanos sejam livres e tenham assegurados os meios para exercer a liberdade, devem apoiar-se principalmente no proletariado.
Visto que o equiparamento das riquezas naturais e do capital, produzidos pelo trabalho das gerações passadas e presentes, é hoje a causa principal da sujeição das massas e de todos os males sociais, é natural que, aqueles que nada possuem, sejam os que, em conseqüência de sua miséria, se sintam mais direta e evidentemente interessados em que se ponham em comum os meios de produção, constituindo assim os agentes naturais da exploração. É por isso que dirigimos a nossa propaganda muito especialmente aos proletários e aqueles que, pelas condições em que se encontram, não tem possibilidades de chegar por si próprios – por meio da reflexão e do estudo – a conceber um ideal superior. Mas, para isto, não é necessário fazer do pobre um fetiche, pelo simples fato dele ser pobre, nem alentar nele a crença de que é duma essência superior, nem que, por uma condição que não é certamente fruto do seu mérito nem da sua vontade, tenha conquistado o direito de fazer aos outros o mal que os outros lhe tenham feito. A tirania das mãos calejadas (que, na prática, é sempre a tirania de uns poucos que, se alguma vez tiveram calos, os deixaram desaparecer) não será menos dura, menos ignominiosa, menos fecunda em males duradouros, do que a tirania das mãos enluvadas. O que ela será é menos ilustrada e mais dura: eis tudo.
A miséria não seria tão horrível como é, se além dos males materiais e da degradação física, não produzisse também, ao prolongar-se de geração em geração o embrutecimento moral. E os pobres têm vícios distintos que não são melhores que os que o poder e a riqueza ocasionam nas classes privilegiadas.
Se a burguesia produz os Giolitti, os Graziani e toda a cumprida série de tiranos da humanidade, desde os grandes conquistadores até os pequenos patrões ambiciosos e usuários, produz também os Reclus, os Cafiero, os Kropotkine e tantos outros que em todas as épocas, tem sacrificado os seus privilégios de classe em homenagem a um ideal. Se o proletariado tem dado e continua a dar tantos heróis e tantos mártires à causa da redenção humana, dá também os guardas brancos, os assassinos, os traidores aos próprios irmãos sem os quais a tirania burguesa não poderia durar um único dia.
Como, pois, se pode elevar o ódio a princípio de justiça, a iluminado sentimento de reivindicação, quando é evidente que o mal está em toda a parte e depende de causas alheias a vontade e a responsabilidade individual?
Faz-se quanta luta de classes, se quiser, se por luta de classe se entende a luta dos exploradores a fim de abolir a exploração. Ela é um meio de elevação moral e material e a principal força revolucionária com que hoje se pode contar. Mas propagandear o ódio não, porque do ódio não podem brotar o amor e a justiça. Do ódio nascem a vingança, o desejo de imperar sobre o inimigo, a necessidade de consolidar a própria superioridade. Com o ódio se obtém um triunfo, podem-se construir novos governos, mas não se pode fundar a anarquia.
Compreendemos bem o ódio em tantos desgraçados que a sociedade tortura, tubercolizando-lhes os corpos e destruindo-lhes os afetos. Logo, porém, que o inferno em que vivem seja iluminado por um ideal, desaparece do seu íntimo o ódio, para dar lugar ao ardente desejo de lutar pelo bem de todos.
É por isso que entre nós não há verdadeiros odientos: há apenas retóricos do ódio. E mesmo estes indivíduos procedem como o poeta que, sendo um pai de família exemplar e pacífico, canta o ódio e prega a destruição, porque encontra nisso a emoção para fazer versos bons... Ou maus. Falam do ódio, é certo; mas o seu ódio é feito de amor.
Eu amo-os porque os compreendo. Ainda que falem mal de mim.
 
Por Errico Malatesta, retirado do periódico anarquista ‘A Plebe’ (São Paulo), 27 de maio de 1922, número 182, página 2.