sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Leituras e resenhas


INFORMAÇÕES:
Título: ANARQUISTAS NO SINDICATO – Um debate entre Neno Vasco e João Crispim
Autor: NENO VASCO e JOÃO CRISPIM
Editora: BIBLIOTECA TERRA LIVRE & NÚCLEO DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS CARLO ALDEGHERI
Idioma: português
Encadernação: Brochura
Dimensão: 18 x 11,5 cm
Edição: 1ª
Ano de Lançamento: Novembro 2013
Número de páginas: 110
Preço: R$20,00
 

Abaixo segue uma resenha do livro feita pelo companheiro Antônio Carlos de Oliveira, membro do Centro de Cultura Social, de São Paulo (CCS/SP), texto este que foi solicitado pelos membros do NELCA. Aos interessados em adquirir o livro, entre em contato: nelcarloaldegheri@gmail.com


ANARQUISTAS NO SINDICATO[1]. Uma revisão necessária!

"As divergências entre libertários tem que ser cordiais. Cada militante deve ter a sua própria personalidade, apresentar os problemas como melhor interpretar, mas disposto sempre a corrigir erros e retificar sempre que se demonstrar o equivoco e a falta de razão. O não compartilhar da opinião dos demais, não estar de acordo com fulano ou beltrano não justifica tirar o corpo e não contribuir com a parte que lhe corresponde na hora de meter o ombro na obra comum" (Fragua Social, nº 24, 10/80 de Jose Hiraldo).
A citação anterior foi uma das primeiras coisas que me veio a mente com a leitura da obra “Anarquistas no sindicato”, o quanto que apesar de Neno Vasco e João Crispim divergirem sobre como deveria ser a atuação dos anarquistas e o papel dos sindicatos, ainda assim, apesar de serem um pouco mais ácidos um com o outro, foram respeitosos e mais, generosos durante todo o debate que se seguiu em jornais sindicais ou anarquistas daqui e do exterior.
Na década de 80 frequentando o Centro de Cultura Social tomamos contato com essa e outras questões desconhecidas e até um tanto “polêmicas” que existiam no interior do movimento anarquista.
Na época questionamos o Jaime Cubero e o Antonio Martinez sobre questões como por que alguns se denominarem libertários ao invés de anarquistas, depois quando organizamos a Liga de Trabalhadores em Ofícios Vários de SP porque a diferença entre anarcosindicalistas e sindicalistas revolucionários.
O Jaime nos explicou que os anarcossindicalistas preconizavam a ação dos militantes anarquistas dentro dos sindicatos para a organização dos trabalhadores para luta por conquistas no campo econômico, o que não diminui sua luta política, mas também para ampliar seu nível de consciência revolucionária e mais, entender essa luta como parte do processo de construção para uma nova ordem social. O ápice dessa luta poderia, por exemplo, ser uma greve geral que culminaria com a organização dos trabalhadores dentro dos seus locais de trabalho caminhando para a autogestão da produção e consequentemente associados a outros trabalhadores também, como formas diferenciadas de autogestão em nível de consumo eliminando o papel do atravessador e do patrão.
Nessa concepção os anarquistas não entendiam o sindicato como parte do movimento anarquista organizado e para evitar maiores resistências não se auto proclamavam publicamente anarquistas, algo inclusive desnecessário uma vez que para além de serem identificados com rótulos deveriam se preocupar em ser reconhecidos pela força e coerência de suas ações.
Segundo ele os sindicalistas revolucionários defendiam que os anarquistas deveriam organizar sindicatos ou influenciar esses para que adotassem as formas de organização e luta dos anarquistas, ou seja, os sindicatos deveriam ser parte do movimento anarquista, utilizariam os mesmos princípios de organização e luta do movimento anarquista organizado.
O tema é polêmico e ambos o reconheciam, mas, também, disseram isso nunca foi impedimento para a ação dos anarquistas nos sindicatos e para que mantivessem para além dessa polêmica, relações de militâncias cordiais e respeitosas, o que nos leva as palavras de Anselmo Lorenzo.
"Vamos procurar aproximarmo-nos mais e entendermo-nos melhor, mesmo que não seja para seguir o mesmo caminho, coisa que nem sempre é possível, mas pelo menos pa­ra chegar ao mesmo tempo e o mais depressa possível ao ponto a que todos nos dirigimos” (Proletariado Militante, Anselmo Lorenzo)[2]
Além da Liga o próprio CCS era um espaço aberto ao publico sem filiação partidária[3], nele pessoas ligadas a diferentes religiões e posições politicas foram convidados para falar, era um espaço publico parte da sociedade civil, mantido e animado por anarquistas.
As paginas dessa obra onde foram tão bem selecionados que os artigos sobre as diferentes posições desses dois grandes militantes anarquistas me levaram a outra recordação colocada na citação que segue:
"... Ainda que seja preciso cercar as obras que eles nos legaram com todo o respeito que elas merecem, creio ser necessário fazer uma triagem impiedosa nos teóricos anarquistas do século passado. E lançando sobre seus textos um olhar diferente daquele do asceta que seremos mais fieis a eles. Uma tarefa urgente, visto que a linguagem que eles empregavam perdeu seu conteúdo original e que e necessário reinventa-la para se fazer compreender pelo homem do século XX agonizante" (pag 08, Reflexões sobre a Anarquia, Maurice Joyeux, Terra Livre e Archipelago, SP. 1992)
Quando a falácia da luta entre capitalistas e comunistas autoritários, que apesar das aparentes diferenças eram absolutamente iguais, segundo os capitalistas foi vencida por eles, os mesmos criaram a ideia “do fim da historia”, do fim da luta de classes o que nunca foi aceito pelos anarquistas, assim, reconhecida a falácia que tantos como Bakunin, Kropotkine, Malatesta e outros por tanto tempo anunciaram, uma enorme tarefa se coloca a nossa frente, o resgate dos documentos e depoimentos daqueles que nos legaram historia do movimento anarquistas no Brasil.
Ao contrario do que a historiografia comprometida com seus interesses de classe ou políticos que negaram ao anarquismo seu verdadeiro papel na historia, tentando caracteriza-lo como “planta exótica” trazida por estrangeiros arruaceiros, ou corrente politica utópica no seu sentido mais negativo como algo irrealizável que pouco fez no Brasil, sendo praticamente extinto ainda na década de 20 do século, ou igualmente correto, no milênio passado.
E como afirma Joyeux e como muito bem faz essa obra é com vontade redobrada de colocar em dia as versões mais coerentes da historia do anarquismo que precisamos dar voz aos militantes do passado, trazer a luz sem negar ou escamotear as dificuldades, polemicas, contradições, erros, bem como as convergências, a solidariedade, a cumplicidade, o ato assertivo, a influencia positiva que os anarcosindicalistas e sindicalistas revolucionários causaram em diferentes aspectos da politica, economia, cultura, etc.
Dessa forma é que manteremos vivo e homenagearemos aqueles que dedicaram sua vida a militância anarquista, afinal o anarquista é o único que não espera redenção divina, reconhecimento intelectual ou satisfação econômica com sua ação, luta porque sabe que lutar é a única opção coerente com o ideal que abraçou.
Também merecem parabéns os companheiros da Biblioteca Terra Livre de SP e o Núcleo de Estudos Libertários Carlos Aldeghieri do Guaruja por essa importantíssima iniciativa, sem duvida estão comprometidos com o resgate e a difusão da historia do anarquismo.
Essa é uma das obras que nesse momento merece ser mais que lida, estudada para que outras versões menos coerentes não venham diminuir o valor e a importância da vida e obra de seus autores.

Antonio Carlos e Oliveira – Historiador e Professor de Historia. Dez 2013




[1] ANARQUISTAS NO SINDICATO. Um debate entre Neno Vasco e João Crispim. Biblioteca Terra Livre e Núcleo de Estudos Libertários Carlos Aldeghieri. SP e Guarujá. 2013.
[2] Poucos dias depois veio o Martins com um papel onde estavam algumas citações sobre a questão das relações entre os anarquistas entre essas a de Jose Hiraldo e a de Anselmo Lorenzo.
[3] Jose Oiticica afirma que os anarquistas enquanto parte de um todo são também uma forma de partido politico, contudo, sem os mesmos objetivos e estratégias para chegar ao controle do poder.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Recordando 2013: nossas ações e participações - parte 1

Com o intuito, e acreditamos o dever, de difundir, propagar e semear o ideário ácrata em suas diversas formas de expressão, sua cultura, sua memória, sua história, seus princípios e propostas, visando projetar perspectivas sociais divergentes da qual nos é imposta, o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA), inicia e segue o ano de 2013, realizando suas atividades e ações junto aos companheiras/os da Baixada Santista e de outras localidades, espalhando suas sementes em terras litorâneas e outros territórios. Abaixo segue uma síntese, com certo atraso, das atividades que realizamos no primeiro semestre do ano de 2003.
Em 2 de Março, após o encerramento das festas carnavalescas, a Biblioteca Carlo Aldegheri, sede do NELCA, abre suas portas ao público para a apreciação da palestra “Uma visão sobre o movimento punk e anarquista na cidade de São Paulo, entre 1980 e 1995”, ministrada pelo companheiro Antônio Carlos de Oliveira, membro do CCS/SP. Com a sala cheia, Antônio Carlos, através do exercício da memória, relatando suas experiências e vivências com os velhos militantes anarquistas de São Paulo e sua atuação junto ao movimento punk de São Paulo, apoiando-se no contexto do período abordado, realizou uma bela explanação tratando de fatos como o ressurgir do movimento anarquista na capital paulista, a reabertura do Centro de Cultura Social e a aproximação dos jovens punks com os velhos militantes, como Jaime Cubero, uma ótima palestra que contentou os presentes. Vale mencionar aqui o comentário do companheiro Fernando, da Rádio da Juventude, de São Vicente, sobre esta atividade:
Foi muito legal a discussão sobre o movimento punk e anarquista nas décadas de 80 e 90. Não foi uma discussão acadêmica, mas sim uma conversa franca e direta sobre as experiências de práticas e ação direta das organizações e em especial da história de vida do companheiro Antonio Carlos, ex-operário metalúrgico, que atualmente trabalha como coordenador pedagógico, que participou do movimento Punk na década de 80 e nos anos 90 procurou se aproximar mais dos coletivos anarquistas. Foi uma ótima conversa que envolveu desde as aspirações e a "porralouquice" da adolescência passando as situações do movimento operário, e do movimento punk/anarquista, os momentos incipientes e os momentos de trabalho intenso, etc.”.
Abaixo segue vídeo com trecho da palestra do companheiro Antônio Carlos de Oliveira:

Ainda no mês de Março, seguindo nossas atividades, nos deslocamos para a Cinemateca de Santos, levando nossos livros para venda – venda esta que possui uma tripla função: a manutenção de nossa sede e de nossas atividades; o apoio financeiro para as Editoras Anarquistas que distribuímos e, conseqüentemente, a propagação do anarquismo – além da distribuição gratuita de vários materiais anarquistas, realizamos naquele espaço atividade em memória, homenagem e respeito à luta das mulheres operárias e anarquistas. Nesta atividade ocorreu a exibição do filme “Emma Goldman: Uma Mulher Muito Perigosa” (2004), de Mel Bucklin, seguido de roda de conversa e debate sobre o tema Anarcofeminismo na Atualidade em conjunto com os coletivos Minas Terrestres e Marana, ambos de São Paulo. Antecedendo o debate, a companheira Liana, do NELCA, numa rápida exposição e resgate da memória, atuação e colaboração das mulheres militantes anarquistas na cidade de Santos, lembrou o nome de companheiras como: Elza Costa, Sofia Krup, Aurora Novoa Lozano, Luzia Novoa, Isaura Puyssegur, Sofia Garrido, Maria Rodriguez, Paula Soares, Angelina Soares, Pilar Soares, Matilde Soares, entre outras... Houve também a recordação e homenagem aos 20 anos da fundação do Coletivo Anarco-Feminista (CAF), grupo anarcofeminista de grande importância e atuação na cidade de São Paulo e os mais de 15 anos de lançamento do informativo “Libertárias”, de Santos, confeccionado por militantes anarcofeministas, ocorrendo a distribuição de cópias do informativo “Libertárias”, Número 1, além de informativo do CAF para o público presente.
Durante a roda de conversa ocorreu a desconstrução crítica do filme exibido, repensando e apontando traços da biografia de Emma Goldman que foram ignorados na película. Vários pontos fundamentais também foram expostos e debatidos, tais como: a ausência da memória de militantes anarcofeministas por muitos anarquistas; a reivindicação da luta pela emancipação e protagonismo das mulheres. Foi uma atividade que contou com um público volumoso, “superlotando” a sala da Cinemateca, público esse que empolgado, colaborou e participou do debate.
Vale mencionar, também, que antecedendo a exibição do filme e a roda de conversa houve a tradicional apresentação sobre o NELCA, nossa Biblioteca, sobre o filme e a leitura do texto “Diálogo com Emma Goldman”, da companheira Mabel Dias, de João Pessoa/Paraíba, autora dos livros “Mulheres Anarquistas – O Resgate de uma História Pouco Contada, Volumes 1 e 2”, pelo companheiro Renato do NELCA.

Quem tiver interesse, pode baixar o áudio completo do debate que aconteceu nesse dia, no seguinte link:

http://www.4shared.com/zip/elEJKdbf/23032013-Doc-Emma-Goldman-Cine.html

No mês de Abril, estava previsto uma atividade em terras interioranas, na cidade de Bauru, seria mais uma ação de propaganda em conjunto com o espaço de cultura alternativa Empório e Cineclube Extinção, mas o imprevisto surgiu e a viagem prevista, acabou sendo cancelada. Mas mantivemos a atividade proposta e com o envio das mídias DVD, houve a exibição dos filmes anunciados “O Sonho Não Acabou: O Teatro Anarquista em São Paulo”, “Escolas Modernas: Educação Libertária na São Paulo do Início do Século& “Pão Negro”, com a colaboração do companheiro Aran Carrieri, responsável pelo Empório Extinção. É dele que recebemos a narrativa sobre esta sessão realizada no Cinextinção:
O CinExtinção (Bauru/SP) do dia 27/04/2013, recebeu os curtas “O Sonho Não Acabou: O Teatro Anarquista em São Paulo”, “Escolas Modernas: Educação Libertária na São Paulo do Início do Século” & “Pão Negro”, na segunda sessão em parceria com o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (Guarujá/SP). Quase ninguém das vinte e três pessoas que lotaram a pequena sala do CinExtinção (www.fb.com/extincao) tinha qualquer noção sobre anarquismo e pedagogia libertária, longe disso. A maioria nem sequer imaginava a existência da Escola Moderna ou da experiência anarquista no estado do Paraná e no Brasil. Pela falta de (in)formação histórica, que não se propaga nas escolas e meios tradicionais, ficaram espantados e felizmente interessados na leve explanação que o curador do CinExtinção, Aran Carriel, fazia entre os filmes. Foi feita uma analogia de continuidade, considerando que a baixa circulação das idéias de autonomia e educação alternativa ao povo que mudariam nossa realidade é a responsável por vivermos neste quadro sócio-político presente, onde o pouco pão e o circo podre vêm como paliativos a um país que podia muito mais. A maioria dos espectadores era de estudantes entre 16 e 23 anos. Alguns interessados em 'estilo de vida alternativo' tiveram ali bastante informação e estímulo para ao menos entender a nossa formação e a possibilidade ativa de viver de modo mais autônomo e autêntico, e atentar à cultura imposta que mais uma vez alienou uma grande parte da História em prol de velhos ditames de uma política e educação classistas.


Tendo a propaganda e difusão do ideal anarquista como uma das principais atividades, desde os primórdios das ações públicas do NELCA, estamos realizando várias destas atividades conjuntamente com a Cinemateca de Santos, através da exibição de filmes, tendo uma apresentação inicial sobre o filme e o tema a ser ali abordado, e após o filme, a realização de uma palestra ou roda de conversação, visando fomentar a reflexão crítica tendo as perspectivas libertárias como norte e apontar questões históricas sobre as lutas libertárias no decorrer da história. Nestas sessões realizamos a exibição e debate de filmes e curtas como: “O Sonho Não Acabou: O Teatro Anarquista em São Paulo”, “Louise Michel: A Rebelde”, “Francisco Ferrer i Guardia, Uma Vida Para a Liberdade”, entre outros. Tais atividades sempre contaram com público considerável e resultando em excelentes e enriquecedores debates. Entendendo a sétima arte como importante ferramenta para nossos objetivos, convidamos o companheiro Rafael Morato Zanatto para atividade realizada em 11 de Maio, ocorrendo na Cinemateca de Santos a exibição do filme de Jean Vigo “Zero de Conduta” (1933), seguido da palestra “Cinema & Anarquia – Vigo vulgo Almereyda”, onde o companheiro tratou da relação cinema e anarquia (principalmente na França), o trabalho do coletivo Cinema do Povo e de outros militantes ácratas, além da colaboração da película apresentada e de Jean Vigo para o movimento anarquista. A sessão contou, novamente, com público considerável e apesar do tom acadêmico da oratória do companheiro, agradou ao público. 
Abaixo segue os links do texto publicado no site “Passa Palavra”, dividido em duas partes, escrito pelo companheiro Rafael e que foi a referência de sua palestra:




1º Parte: http://passapalavra.info/2013/06/79137 

2º Parte: http://passapalavra.info/2013/06/79818

Mês de Junho, a revolta está nas ruas. A partir de ações iniciadas com o chamado do Movimento Passe Livre, da cidade de São Paulo, contrário ao aumento da passagem de ônibus na capital paulista, o braço repressivo do Estado, com a sua função brutal de proteção ao capital, desce as ruas visando expulsar os rebeldes dos espaços públicos e se contentarem com a determinação do capital. Após alguns dias de intenso combate, com uma repressão exagerada dos aparatos policiais contra os manifestantes, o número de pessoas nas ruas revoltadas contra a opressão selvagem estatal aumentou extraordinariamente, gerando um imenso número de pessoas nas ruas manifestando, agora não mais somente contra o aumento da passagem
dos transportes públicos, mas também reivindicando diversas demandas. Durante o processo da conquista vitoriosa da luta contra o aumento da tarifa, grupos de direita, tomam de assalto os manifestantes, seqüestrando a revolta popular tornando a mesma num joguete político, visando enfraquecer o poder federal vigente e criar um tal “movimento autônomo” sobre a orientação de elementos direitistas utilizando-se de infiltrados (os coxinhas e P2), e da má, ou nenhuma, formação e orientação política dos jovens manifestantes contentes (os chamados “ursinhos carinhosos”), apenas em dizer não, sem ter uma proposta contrária ao sistema vigente. Foi em meio ao calor destes confrontos e contrastes que no dia 22 de Junho de 2013, realizamos mais uma atividade na Cinemateca de Santos, uma ação coletiva com as Mães de Maio, com a exibição do curta-documentário “Mães de Maio – Um Grito Por Justiça” (2011), tendo a presença e fala da companheira Débora Maria, uma das líderes do coletivo convidado. O público que encheu a sala da Cinemateca (chegando à faltar cadeiras para muitos dos presentes), pode apreciar a história das Mães de Maio, as ações que vêm sendo realizadas pelas mesmas, e as denúncias contra um Estado opressor e assassino que nos circundeia. Ocorreu também, como não podia deixar de ser, até mesmo pelo próprio contexto, uma avaliação crítica e autocrítica das manifestações
populares e as perspectivas sobre as mesmas. A atividade foi bastante enriquecedora para a formação militante social, enriquecida pelos informes e avaliações ali realizadas. Com as companheiras seguimos juntos na luta!!! Com elas seguem nossos votos de solidariedade e nossos corpos preparados para luta!!! Informamos que também, a partir dessa data, estamos distribuindo o segundo livro publicado pelas Mães de Maio, “A Periferia Grita”, quem se interessar o livro custa 30 reais.
Sobre as Mães de Maio, visualizem os seguintes endereços:

http://maesdemaio.blogspot.com.brhttps://www.facebook.com/maes.demaio?fref=ts

Abaixo os links, em duas partes, com o documentário exibido:
Ainda neste primeiro semestre de 2013, participamos de duas atividades realizadas no Centro de Cultura Social, de São Paulo (CCS/SP), na organização do Ciclo Comemorativo aos 80 Anos do CCS: Educação, Conhecimento, Cultura – 80 Anos de Anarquismo.
Nossa primeira participação ocorreu em 25 de Maio de 2013, tendo o companheiro Marcolino Jeremias representando o NELCA, na atividade “Velhas Vozes Libertárias: Homenagem aos Antigos Militantes”, realizada junto com a companheira Miquelina, também membro do CCS/SP. Apesar do pouco público presente, o evento foi bastante interessante para quem estava interessado em conhecer um pouco mais sobre a história do anarquismo em São Paulo. Foram exibidos trechos de vídeos depoimentos de militantes como: Virgilio Dall’Oca, Carlo Aldegheri, Diego Giménez Moreno, Francisco Cuberos & Jaime Cubero, além de fotos de outros antigos militantes como Antônio Martinez, Ideal Peres, Esther Redes, Edgar Rodrigues, Anita Aldegheri, Oliva Castilho, Pedro Catallo, Edgard Leuenrouth, Felix Gil Herrera, entre outros. Foram comentadas algumas biografias e impressões pessoais de militantes que tiveram seus depoimentos exibidos, tornando o bate papo bem agradável e dinâmico. Com certeza o depoimento do Carlo Aldegheri foi o que chamou mais a atenção dos presentes e contribuiu para também fazer uma avaliação crítica do movimento anarquista.
Nos links abaixo, quem tiver interesse pode conferir, alguns trechos dessa atividade.

Parte 1 http://www.youtube.com/watch?v=Lu81jCepeLg

Parte 2 http://www.youtube.com/watch?v=yXvC_YXIYZ0

Parte 3 http://www.youtube.com/watch?v=aio1STEHcro


A segunda atividade ocorreu no dia 15 de Junho de 2013, no calor das manifestações. Com o tema Perspectivas do Anarquismo Hoje”, roda de debate com a participação dos grupos libertários Ativismo ABC, CCS/SP, Biblioteca Terra Livre e NELCA. Entre as histórias e ações apresentadas pelos grupos, nós do NELCA sugerimos uma ação anti-sectária por parte dos vários grupos anarquistas, pois acreditamos que neste momento de tensão social e pela atual conjuntura, segundo nosso ponto de vista, o mais correto e fortalecedor seria que os vários grupos e militantes anarquistas deixem de lado seus adjetivos e juntem forças nas intervenções libertárias nos mais diversos espaços de atuações, criando assim uma real perspectiva anarquista.
Em breve publicaremos aqui, um relato sobre as atividades do NELCA, durante o 2º semestre de 2013.
No momento, ficamos aqui desejando os sinceros votos de Saúde & Anarquia a todos os/as companheiros/as !!!

domingo, 22 de dezembro de 2013

Carlo Aldegheri: Uma merecida homenagem



1951 – Desembarca no porto de Santos, o imigrante italiano Carlo Aldegheri. Junto a sua bagagem, Carlo, com cerca de 50 anos, trazia uma intensa história de militância anarquista, desde sua atuação quanto objetor de consciência, em período correspondente a Primeira Guerra Mundial, participando de reuniões e debates anarquistas na França, participando de manifestações antifascistas, atuando junto a Milícia Alpina de Sabadell, em Aragão, na Espanha, nos embates contrários a investida nazifascista naquele país na chamada Revolução Espanhola, militância que lhe custou prisões, fugas e tiros. Preso em campos de concentração, conseguindo sobreviver graças a sua habilidade profissional de sapateiro. Aqui chegando, arruma trabalho, junta dinheiro e no ano seguinte desembarca no mesmo porto sua esposa e companheira Anita e sua filha Primavera. Desde sua chegada ao Brasil, manteve contato e colaborou com o movimento anarquista brasileiro, através do Centro de Cultura Social, de São Paulo, e Nossa Chácara, participando de reuniões e até mesmo financeiramente. Com o esforço de seu trabalho contribuiu, inclusive, com a doação de uma gráfica, junto a outros companheiros, e com a doação de um terreno na cidade do Guarujá, local onde morou desde os primeiros anos em que chegou ao Brasil. Ajudou também companheiros que passavam por necessidades pessoais, econômicas, entre outros. Outra colaboração de Aldegheri, foi a tradução e publicação do livro “Preanarquia”, do militante italiano e companheiro de Carlo, Randolfo Vella. Faleceu aos 93 anos de idade, no dia 04 de maio de 1995, na cidade do Guarujá. Faleceu crendo no anarquismo enquanto um ideal potencializador para uma sociedade mais justa, livre e humana, como ele dizia: “O anarquismo é uma luz no fim do túnel”.
2010 – Militantes anarquistas, que se encontravam dispersos na cidade do Guarujá, resolvem se aproximar, se reunirem, estudarem e debaterem textos anarquistas. Tem início o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri, que após a leitura, análise, debate e reflexão de uma série de textos, seus militantes definem sua concepção anarquista de atuação e lança sua carta de apresentação apresentando suas propostas de atuação, principalmente, a difusão, propaganda e ação anarquista, junto a outros coletivos libertários e sociais e a abertura de uma biblioteca contando com o material acumulado por esses indivíduos com o passar do tempo.
08.12.2012 – Na cidade do Guarujá, é aberta as portas da Biblioteca Carlo Aldegheri. Esta biblioteca é resultado dos esforços e vontades somadas ao antigo sonho dos militantes do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri, de tornar de acesso público os diversos materiais (livros, revistas, jornais, panfletos, etc.) adquiridos com o passar do tempo. Uma série de documentos obtidos através de compras, trocas, doações de antigos militantes como Edgar Rodrigues, Diego Gimenez Moreno, União Libertária da Baixada Santista, um rico acervo informativo, tendo em sua grande parte a temática anarquista em suas variações (ecologia, sindicalismo, feminismo, artístico, etc) mas contando também com materiais relacionados aos diversos assuntos como literatura, marxismo, contracultura, gênero, entre outros. Com esta biblioteca e este acervo objetivamos não ser apenas um espaço para pesquisas com fins acadêmicos, mas também, e principalmente, a formação política libertária dos/as indivíduos/as e coletivos que se interessem e buscam informações de uma perspectiva ácrata, já que há uma grande carência deste conteúdo temático na região em que estamos inseridos, além de compreendermos que a luta libertária é uma luta histórica, que vem se desenvolvendo com o passar dos anos, dos séculos, e desta forma não é uma luta solitária, mas sim uma luta solidária, que visa a construção de um novo mundo, de uma nova sociedade, para novos homens e novas mulheres, visando uma existência sadia, justa, humana e livre. Acreditamos que a Biblioteca Carlo Aldegheri, é um espaço de EMANCIPAÇÃO & LUTA, sendo o conjunto de nosso acervo, ser um verdadeiro arsenal para a desconstrução e destruição do Poder e de todos seus tentáculos, pois reconhecendo e refletindo as lutas do passado, e do presente, suas estratégias, conquistas e derrotas, além das artimanhas estatais e capitais, podemos criar novos métodos de ação e vivência visando a construção de um melhor futuro. O material que segue abaixo é uma justa homenagem ao militante Carlo Aldegheri que sempre teve no anarquismo seu norte, trazendo um pouco de sua história ao conhecimento daqueles que acompanham nosso blog e nossas atividades, além de acreditarmos, ser uma bela comemoração do que estamos conquistando com o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri e ao aniversário de 1 ano da Biblioteca Carlo Aldegheri. Iniciamos com um texto dos/as companheiros/as Marcolino Jeremias e Liana Ferrerira, ambos integrantes do NELCA, intitulado “Anita e Carlo Aldegheri – um casal libertário” resultado de pesquisas e entrevistas, que teve sua publicação original na revista Letra Livre, n.? ano?, que em breve será incluída em uma publicação que estamos organizando para relembrar a trajetória anarquista de Carlo Aldegheri, que além do texto aqui apresentado contará de outros escritos sobre o Carlo e do próprio Carlo. Segue o texto “Carlo Aldegheri: dall Italia dal Brasile”, de Giorgio Sacchetti, publicado no periódico italiano Umanitá Nuova, n. 29 , anno 93, de 06 de outubro de 2013, onde além de apresentar uma breve biografia do Carlo, menciona o NELCA. E para encerrar, segue o prontuário de número 47.910, ou seja, a ficha policial de Carlo Aldegheri, localizado originalmente no Archivo Centrale Dello Stato, de Roma, documento este cedido pelo companheiro Nildo Avelino, membro de CCS/SP ao companheiro Marcolino Jeremias. Neste prontuário pode-se observar a intensa ação militante de Carlo Aldegheri, nos anos 30 e 40 do século passado. Inclusive se houver algum voluntário em traduzir este prontuário... já agradecemos antecipadamente.
No mais segue os sinceros votos de um próspero 2014 de Saúde, Luta & Anarquia!

Documento 1:

ANITA E CARLO ALDEGHERI – UM CASAL LIBERTÁRIO

Embora tenham tido uma trajetória extremamente relevante para o movimento anarquista, pouco se ouve falar sobre Anita e Carlo Aldegheri. São militantes que por muito pouco não acabaram ficando no completo esquecimento e anonimato, inclusive por parte dos próprios libertários...
É exatamente por essa razão, que o presente texto possui a tarefa de reconstituir a biografia militante desse ilustre casal e, ao mesmo tempo, prestar uma justa homenagem a esses bravos companheiros que entregaram-se por completo para a causa anarquista. Anna Canovas Navarro Aldegheri, ou simplesmente Anita como os amigos a chamam, nasceu em 3 de novembro de 1906, em Múrcia, na Espanha. Filha de Sebastiano Canovas e Rosaria Navarro, um modesto casal camponês que trabalhou muito para sustentar seus oito filhos. Por causa das dificuldades econômicas, Anita não pode freqüentar muito a escola e logo aos 12 anos começa a trabalhar em uma fábrica de tecidos, durante 2 anos.
Em seguida mudou-se para Sabadell, uma região próxima de Barcelona, e lá trabalhou por 18 anos, também como tecelã, em uma fábrica chamada “Sociedad Anónima Cancuadras” que era filiada à C.N.T. (Confederación Nacional del Trabajo), a maior organização operária da época, de tendência anarco-sindicalista. Foi nesta mudança de cidade, que Anita conheceu a pessoa que seria o seu companheiro por toda a vida.
Carlo Aldegheri nasceu em 22 de fevereiro de 1902, em Cadiero, na região de Verona, na Itália. Filho de Mose Aldegheri e Scartossoni Maria, um casal de lavradores que teve quatro filhos e cinco filhas. Ajudou seus pais no cultivo da terra e com 14 anos trabalhou para o governo italiano durante a primeira guerra mundial. Freqüentou pouco tempo a escola, pois também foi obrigado a dedicar-se ao trabalho.
Quando foi convocado para prestar o serviço militar obrigatório, Carlo atravessava uma época de muitas incertezas, porém, estava firmemente decidido que não queria ser um soldado, nem obedecer ordens e muito menos matar seus semelhantes. Foi essa convicção que o fez mudar-se para a França, onde se reuniu a outros objetores de consciência, que negavam se submeter aos mandos irracionais das autoridades.
Foi na região de Toulon que Carlo Aldegheri tornou-se anarquista, participando pela primeira vez de debates e reuniões libertárias.
Para sobreviver na França, sem dinheiro e com fome, começou a trabalhar como pedreiro, pintor e, por fim, como sapateiro – a profissão que adotaria para o resto de sua vida e que, posteriormente, lhe garantiria a sobrevivência.
Em julho de 1924, ao participar de uma manifestação antifascista em frente ao consulado italiano em Paris, Carlo Aldegheri foi atingido por uma bala disparada pelos guardas do consulado. A bala atingiu o pulmão de Carlo que mesmo caído, sangrando e quase sem consciência ainda era espancado pelos guardas italianos. Se não fosse pela intervenção da polícia francesa, Carlo Aldegheri teria morrido ali mesmo.
Após conseguir recuperar-se dos ferimentos, Carlo passou pelos cárceres de La Sainté e de Fresner (ambos em Paris), apesar de não ter cometido nenhum crime. Algum tempo depois, Carlo recebeu anistia por sua condição de preso político, porém, estava sob “Interdición de Localidad”, uma espécie de qualificativo de periculosidade e, portanto, era muito visado pelas autoridades locais.
É por essa razão que em 1932, ele mudou-se também para Sabadell, na Espanha, e no ano seguinte, Carlo conheceu Anita e sua filha Primavera. Eles viveram juntos durante três anos e, em seguida, registraram-se no civil.
Foi quando, em julho de 1936, iniciou-se a Guerra Civil Espanhola e os anarquistas, organizados na C.N.T. e na F.A.I. (Federación Anarquista Ibérica), lutaram com a mesma intensidade contra o avanço do nazifascismo e por uma revolução social verdadeiramente organizada pelos trabalhadores.
Era uma situação na qual não havia como omitir-se, de forma que, Carlo Aldegheri tomou parte nas frentes de Aragão, onde participava da Milícia Alpina de Sabadell.
Durante esse tempo, Anita continuou trabalhando na fábrica de tecidos e ainda cuidava de sua filha Primavera. Quando faltava matéria-prima para seu trabalho, por conta da fábrica, trabalhava como auxiliar em um pronto socorro, além de manter sempre contato com os sindicatos. Tanto que Anita viajou sozinha para Barcelona (já que Carlo estava participando das frentes de Aragão), para participar das manifestações do enterro do revolucionário Buenaventura Durruti, em 21 de novembro de 1936.
Com o fim da guerra civil, a família Aldegheri estava novamente reunida e tiveram que juntar-se à coluna internacional que estava fugindo para a França, com o objetivo de escapar da vingança fascista que começava a vigorar na Espanha.
Quando a família Aldegheri tentou passar pelo túnel que os levaria para a França, perceberam que só liberavam a passagem de mulheres, crianças e feridos. Como a família não queria separar-se novamente, Anita aproveitou que Carlo não tinha o dedo indicador da mão direita e improvisou um “curativo” que fez com que a família inteira conseguisse sair da Espanha.
Porém, ao chegar na França, na condição de refugiados, a família foi novamente afastada. Carlo foi enviado para um campo de concentração de refugiados. Anita teve que trabalhar em uma fábrica de material de guerra, além de cuidar de Primavera. Posteriormente, ela teve que trabalhar vendendo sapatos por conta própria, em uma fábrica de acordeão e, por fim, em uma fábrica metalúrgica onde produzia peças para carros. A maior parte dessas profissões eram muito desgastantes e mal remuneradas.
Já Carlo, havia sido transferido para o campo de Gairi, nos Alpes franceses e, em seguida, para a Chácara de Dunkerque, onde Carlo trabalhou cavando trincheiras e nas horas vagas como sapateiro. Quando os nazistas invadiram a França, os militares alemães tomaram a Chácara de Dunkerque e fizeram todos os refugiados caminharem à pé até a Holanda, Carlo nesta época já contava com 40 anos e teve muita dificuldade para concluir esse percurso.
Ao chegarem no porto de Rotterdan (Holanda), os refugiados foram embarcados para um campo de concentração alemão em Bratislava. Justamente nesse período, por causa de um acordo que Hitler fez com a Cruz Vermelha Internacional, Carlo Aldegheri conseguiu retornar para a França, onde viveu durante alguns meses em Reims, porém, acaba sendo extraditado para a Itália, onde esteve preso nos cárceres de Verona (por 40 dias), Gaeta (na província de Nápoles) e, por fim, na Ilha de Ventotene que fica no Golfo de Gaeta, Mar Tirreno. Foi nessa prisão fascista, que Carlo teve como companheiro de cela um socialista chamado Sandro Perttini, que posteriormente chegou a ser presidente da Itália.
Por volta de 1943, Carlo e outros prisioneiros da Ilha foram transferidos para um campo de concentração na província de Tresso, de onde Carlo conseguiu fugir arriscando mais uma vez a própria vida.
Ao retornar, com muito custo, para a Itália, Carlo retoma a militância anarquista através da Companhia de Libertação Nacional e, como era uma figura de destaque no Comitê de Verona, acaba sendo preso novamente, desta vez, no cárcere fascista de Bolzano, onde, segundo o próprio Carlo, “só sobreviveu por causa de seu ofício de sapateiro”. Carlo Aldegheri somente foi libertado dessa prisão alguns meses após o fim da segunda guerra mundial.
Todo esse martírio (que aqui contamos de forma bem resumida), durou longos nove anos e nove meses, até que finalmente a família pode reunir-se novamente.
Com muito custo, Anita e Primavera conseguiram vistos para Verona, na Itália, onde encontraram Carlo na residência de seus familiares. Durante o tempo em que viveram como refugiados, Anita escrevia para a família de Carlo para poder ter informações sobre ele, já que o contato direto entre Anita e Carlo era muito difícil por causa das circunstâncias.
Após o fim da guerra civil, Anita não conseguiu obter mais nenhuma informação sobre o paradeiro de sua família que ficou na Espanha.
Na Itália, a família Aldegheri começou a reconstruir sua vida. Anita voltou à trabalhar em uma fábrica como tecelã e Carlo continuou a desenvolver seu ofício de sapateiro. Foram cinco anos até que a família decidiu mudar-se para o Brasil.
Inicialmente, Carlo veio sozinho para o Brasil e chegou ao porto de Santos no ano 1951. Após muito trabalho, conseguiu enviar dinheiro suficiente para que Anita e Primavera se mudassem definitivamente para o Brasil. Mãe e filha chegaram ao porto de Santos em 14 de março de 1952.
Carlo e Anita se dedicaram à fabricação de calçados, principalmente sandálias para os turistas. Trabalharam literalmente dia e noite ininterruptamente, até conseguirem se estabelecer e fixar residência no Guarujá, onde construíram uma casa na Avenida Puglisi, 300 – fundos.
Em 1957, Primavera que havia se casado aos 19 anos retorna para a Itália, onde vive até os dias de hoje.
Desde que chegou ao Brasil, o casal procurou contato com os companheiros anarquistas e logo começaram a participar das reuniões e congressos na Nossa Chácara/ Nosso Sítio e do Centro de Cultura Social de São Paulo, onde (apesar da distância) eram sempre dos primeiros a chegar.
Com o êxito profissional, a família Aldegheri (que sempre teve uma vida extremamente simples e honesta), obtinha recursos financeiros que investiam em quantidade, sem hesitar, nas atividades promovidas pela Nossa Chácara e pelo Centro de Cultura Social.
Inclusive, a família Aldegheri chegou a comprar uma gráfica (em conjunto com outros três companheiros) e um terreno no Guarujá como doação para o movimento libertário. Além de ajudar até mesmo os companheiros que passavam por problemas econômicos pessoais. Para a família Aldegheri, o que tinha valor mesmo, era a solidariedade!!!
Isso tanto é verdade, que o nome Aldegheri pode ser facilmente encontrado nas listas de doações que foram publicadas no livro do escritor Edgar Rodrigues O Ressurgir do Anarquismo.
Ainda em 1963, Carlo Aldegheri reeditou o polêmico livreto “PreAnarquia – Sugestões Práticas Sobre a Organização da Sociedade Futura”, escrito originalmente em italiano, no ano de 1931, por Randolfo Vella e, nesta versão, foi traduzido para o português por Alexandre Pinto.
Randolfo Vella foi um anarquista italiano, companheiro de Errico Malatesta, que durante o tempo em que morou na Espanha, teve uma convivência muito próxima à Carlo e Anita e, pelo que consta, foi uma grande influência para o casal, além de grande amigo.
Carlo e Anita sempre foram anarquistas práticos, para eles não havia sentido em discutir a teoria anarquista, se não houvesse como realizá-la.
Para Carlo Aldegheri, “o anarquismo é uma luz que há no fundo do túnel”, é ser “contra a autoridade porque a autoridade cria despotismo, cria classe e cria injustiça. (...) É criar um mundo realmente de irmãos, não de hipócritas, como se vive agora sob o nome da democracia, onde se cometem todas as injustiças imagináveis, onde gente morre de fome trabalhando, enquanto poucos têm todas as riquezas”.
Carlo Aldegheri faleceu extremamente consciente de suas convicções anarquistas, aos 93 anos, no dia 4 de maio de 1995, devido uma parada cardíaca (entre outros problemas) e, no dia seguinte, foi enterrado, de uma maneira modesta (conforme sua vontade), no cemitério Jardim e Paz, no bairro do Morrinhos, em Guarujá.
Já Anita Aldegheri, aos 107 anos de idade, ainda vive no Guarujá, com boa saúde, extremamente lúcida e convicta de sua postura libertária. Anita ainda se lembra com carinho dos romances, escritos pelo anarquista Federico Urales, que leu durante a juventude na Espanha e que também lia durante o trabalho na fábrica para uma companheira que não sabia ler. Lembra também dos comícios em que ouvia os discursos revolucionários de Federica Montseny e Juan Garcia Oliver, assim como dos encontros na Nossa Chácara/ Nosso Sítio e no Centro de Cultura Social.

Marcolino Jeremias & Liana Ferreira


Documento 2: Umanitá Nuova, nº 29, anno 93, de 06 de outubro de 2013  



Documento 3: Prontuário de número 47.910



Acesse:

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Próximas atividades

As próximas atividades de difusão e propaganda libertária do Núcleo De Estudos Libertários Carlo Aldegheri têm início no próximo Sábado, 28 de Setembro de 2013, no qual haverá a palestra sob o tema: “Drogas, Prazer, Liberdade & Anarquismo”, a cargo do professor Antônio Carlos de Oliveira graduado em História pela PUC/SP, organizador do Arquivo do Movimento Punk (P.U.C.) & autor dos livros: “Os Fanzines Contam Uma História Sobre Punks” (Editora Achiamé) & “Projetos Pedagógicos – Práticas Interdisciplinares” (Editora Avercamp).






E, anote ai em sua agenda: 

Dias 30/09 e 07/10 (Baixada Santista) - No programa "Bem Estar Criança", no canal Net Cidade, canal 10 para os assinantes da Net digital ou 14 analógico, à 22h30, exibição de entrevista com o companheiro Marcolino Jeremias, do NELCA, falando sobre a redução da maioridade penal, anarquismo, cultura libertária, etc...;

Dia 18/10 - Palestra com Luiz Eduardo Santos, organizador do instituto Joana D'Arc & do 3G (Grupo Gay do Guarujá), sobre o tema: "Combatendo a Homofobia no Cotidiano", na Biblioteca Carlo Aldegheri;

Dia 02/11 - Atividade Cinema & Anarquia, na Cinemateca de Santos, com a exibição do documentário "Todo Fim é um Começo" (produção: Anarco filmes & Coletivo Cultive a Resistência, São Paulo, 2012, 68 min.), seguido de debate sobre a história & perspectivas do movimento anarco-punk em São Paulo e na Baixada Santista, com Zeca, Marina e Josimas.


Até então, estas atividades já estão confirmadas, outras ações e ideias podem aparecer, acompanhem e nos ajudem a divulgar e semear a cultura libertária !!!