quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sobre as eleições

Publicamos hoje um artigo clássico do anarquista espanhol Manuel Peres Fernandez, que além de ter atuado na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), também militou durante muitos anos no Brasil (Rio de Janeiro), participando do coletivo que produziu o periódico ‘Ação Direta’ (1946-1958). O tema desse texto aborda a questão das eleições, muito propicio para esse momento que estamos vivendo. Leiam & Reflitam & Comentem !!!

TRABALHADOR

Se ainda confias no voto para dar solução aos teus problemas, escuta um momento a palavra veemente da História

MANOEL PERES

            Mais uma vez, os políticos de todas as tendências, com a sua enorme bagagem cheia de promessas demagógicas, batem à porta da tua boa fé para solicitar-te o voto que há de conduzi-los aos cargos culminantes do Estado, nos quais, longe de lutarem pelas tuas justas reivindicações, defenderão os interesses supremos do capitalismo.
            E, mais uma vez, amigo trabalhador, sem quereres compreender a força formidável da tua capacidade criadora e construtiva, acudirás à urna e anularás a tua própria personalidade, ao confiares a outro homem a solução dos teus problemas angustiosos.
           
Escute produtor:

            É, tu que, com gigantesco impulso, moves a alavanca potente do progresso humano. És tu que, construindo cidades e palácios maravilhosos, vives num miserável barracão do morro ou no triste quartinho de uma casa de cômodos vendo os teus filhinhos definhando lentamente com o organismo minado pelo vírus terrível da tuberculose... És tu que desces ao fundo das minas para arrancar as entranhas da terra os ricos minerais que, transformados em máquinas e instrumentos de trabalho, contribuem para o desenvolvimento das indústrias, das ciências, das artes e de todas as atividades indispensáveis à existência do homem. E és tu, finalmente, quem, como suprema ironia, colocando pedra sobre pedra, constrói estatuas gigantescas simbolizando a liberdade, como a que existe à entrada do porto de New York, o que não impede que continues submetido à mais terrível escravidão.       
           
            Como é grande o Brasil

            Muitos trabalhadores não querem estudar os seus próprios problemas, confiando ingenuamente nos líderes, que afirmam demagogicamente: “Eu pensarei por ti e defenderei os teus interesses...” e essa confiança leva-os ao extremo de não acompanharem a evolução humana e ignoram as próprias possibilidades do seu país de origem.
            O Brasil, amigo trabalhador, é um dos maiores países do mundo: a sua extensão territorial é de 8.514.500 quilômetros quadrados, ou seja, maior que toda a Europa excetuando a Rússia! Para compreenderes a sua grandeza, basta saber que a Espanha, com os seus 504.000 quilômetros quadrados, cabe inteira no Estado de São Paulo...
            Pois bem! O continente europeu, muito menor que o Brasil, com todos os vícios e injustiças do regime capitalista, produz o necessário para alimentar uma população de mais de 500 milhões de habitantes e o Brasil, muito maior que toda Europa reunida, tem pouco mais de 50 milhões de habitantes que, ou comem mal, ou morrem lentamente de fome!
            Temos um litoral imenso, com pesca rica e abundante, rios formidáveis como o Amazonas e o Paraíba, minas de ferro, carvão e outros minerais, jazidas petrolíferas, cachoeiras possantíssimas para fornecerem energia elétrica às nossas indústrias e, finalmente, terras fertilíssimas com variedade de climas e em condições – se forem cultivadas – de produzirem o necessário para alimentar com abundância uma população dez vezes superior à que existe em nosso país! E morremos de fome...!

            A Política não resolve esse problema

            Não, amigo trabalhador, a política não soluciona esse problema angustioso, como não conseguiu solucioná-lo em nenhum país do mundo, e prova disto é que a humanidade vive em guerra permanente, guerra provocada pelo capitalismo para afogar em sangue o grito angustioso dos que morrem lentamente vítimas da injustiça social.
            Há 150 anos, com a derrocada do Feudalismo e a Promulgação dos Direitos do Homem, surgiu no mundo o chamado regime capitalista, ou seja, a chamada organização política dos povos. Se é certo que ao homem foi concedida a liberdade política dando-lhe o direito de escolher ele mesmo os seus representantes, não é menos certo que ele continuou submetido à escravidão econômica, já que o Estado que lhe concedia o direito de votar não lhe dava, de igual forma, os elementos indispensáveis para cobrir as necessidades do lar.
            Durante esses 150 anos, a luta entre o capital e o trabalho foi intensa em todo o mundo, e grandes as tragédias provocadas pela ambição dos dominadores e desespero da classe escravizada.
            Nos períodos eleitorais, todos prometiam uma solução justa para os problemas humanos; os líderes proletários aceitavam a luta política e abandonavam os sindicatos para defenderem no parlamento os interesses de seus irmãos de classe. Triste ilusão. Mesmo sendo honrados, esses trabalhadores ou falhavam e retornavam aos seus sindicatos ou eram absorvidos pelo meio ambiente. O mal não estava nos homens, e sim no sistema social, na deficiente organização econômica do mundo.
            E nessa luta pela conquista do poder político, o proletariado internacional viu como desapareciam, devorados pela ambição e pelo egoísmo de uma existência mais cômoda e feliz, mesmo a custa de vergonhas e claudicações, homens que, nos meios operários eram considerados como valores íntegros e positivos.
            E assim fugiram para sempre absorvidos pelo capitalismo, líderes que na praça pública, pregavam a Revolução Social como única solução para conquistar a felicidade humana entre eles, Clemenceau, Aristide Briand, Pierre Laval, fuzilado como traidor após a libertação da França e muitos outros, como o famoso Alejandro Lerroux na Espanha, o ex-revolucionário Mussolini na Itália e os MacDonald na Inglaterra.
            Os povos não querem, compreender que todos os políticos são iguais, e que, por melhores que sejam as intenções dos candidatos, eles nada podem fazer em seu benefício, porque o mal está na organização social, no próprio Estado, na exploração do homem pelo homem, e na maior de todas as injustiças, a Propriedade Privada.

            A Solução Anarquista

            Mentem, ou desconhecem profundamente as correntes ideológicas, os que afirmam que a Anarquia representa a desordem, o caos e a desorganização social. São ingênuos também os que dizem que este ideal é impraticável porque os povos carecem de educação e cultura para viverem num regime de completa liberdade.
            Se aguardarmos que a humanidade seja na sua totalidade anarquista e tenha cultura suficiente para viver livremente, a escravidão do mundo será permanente porque o capitalismo, bastante inteligente, terá, auxiliado pelo clero, o maior cuidado em impedir essa educação, embrutecendo o cérebro dos trabalhadores.
            O anarquismo não destrói, constrói, quer uma organização social que tenha como base fundamental o trabalho ou uma Sociedade de Produtores Livres. Que isso não é uma doutrina de louco, o prova o fato de terem lutado, propagado e defendido o anarquismo homens de indiscutível valor nas ciências, nas artes, na literatura, etc..
            Anarquistas foram Eliseu Reclus, um dos maiores geógrafos do mundo, Pedro Kropotkin, príncipe e escritor russo, Rodolfo Rocker, uma das maiores mentalidades da Alemanha, Romain Rolland, Miguel Bakunin Luiza Michel, Enrique Malatesta, Sebastião Faure, Pietro Gori, Anselmo Lorenso, Ricardo Mella, Federico Urales, Luiz Fabri, muito outros, verdadeiro orgulho para as ciências e progresso humanos.

            O caso da Espanha

            O proletariado espanhol estava agrupado em sindicatos que atuavam a margem de toda influência política e eram verdadeiros centro de educação social. Nele, os trabalhadores analisavam os seus problemas, entre estes, as formas de organizar a produção, a distribuição e o consumo pensando na transformação social, que o próprio capitalismo reconhece ser inevitável.
            Essa capacidade revolucionária foi a causa fundamental de que o fatídico Franco não triunfasse rapidamente nas importantes regiões da Catalunha, Levante e Castilla, onde os trabalhadores lutaram com verdadeiro heroísmo.   

            Valor construtivo

            Ao surgir a sublevação franquista, a maioria dos capitalistas da Catalunha, complicados no movimento fugiram para o exterior abandonando indústrias e fábricas.
            Um proletariado inculto, educado no ambiente político e sem noção exata dos seus problemas teria sucumbido facilmente vendo descontrolada a produção. Tal não aconteceu na Catalunha onde tudo estava previsto.
            As grandes usinas metalúrgicas, entre elas a Hispano-Suíça, com mais de 800 operários, nomearam imediatamente uma comissão de controle e produção que assumiu a direção das mesmas e foi tão formidável a sua atuação e tão consciente a obra dos trabalhadores que a produção aumentou 45 por cento, o que tornou possível a resistência daquele povo heróico durante três anos.
            Da mesma forma que as indústrias, os transportes e as ferrovias funcionaram normalmente sob o controle direto dos sindicatos, sem que ao povo em armas faltasse o necessário para cobrir as suas necessidades durante a luta contra as hordas fascistas.
            O campo foi coletivizado chegando a produção agrícola ao máximo do seu desenvolvimento, o que demonstra, de forma categórica, que o povo tem capacidade suficiente para reger os seus próprios destinos. Se isso foi possível na Espanha em luta titânica contra o fascismo internacional, mais fácil será quando os povos decidirem libertar-se, em união fraternal, do jugo capitalista.
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            Agora Amigo Trabalhador

            Analisa esses problemas com calma e atenção: medita nas lições da história, no exemplo dos camaradas da Espanha e pensa que, mesmo votando, não conseguirás emancipar-te, porque como afirmavam na Primeira Internacional: “A Emancipação dos Trabalhadores há de ser Obra dos Próprios Trabalhadores.”

Por Manoel Peres, retirado do periódico anarquista ‘Ação Direta’ (Rio de Janeiro), 30 de dezembro de 1946, número 28, ano1, página 1.     

4 comentários:

  1. "A Política não resolve esse problema" Penso que está frase é um tanto problemática, pois, a política está intrínseca em nossas vidas, em nossas lutas e ideologias. Creio que a crítica no texto se refere a política representativa e partidária, essas politiqueiras de hipócritas e picaretas, que na verdade, se resume na disputa pelo poder, ou seja, uma política individualista, de exclusão e interesses escusos de canalhas exploradores que vivem querendo se passar por bonzinhos. Vivemos uma realidade de total descrença e é compreensível este enojamento da política pela maior parte da população, porém, fico bastante intrigado com determinados grupos de luta que se intitulam apolíticos, ainda mais quando se denominam libertários ( não me refiro a vocês núcleo de estudos), afinal, o ideal de sociedade livre, implica exatamente numa posição ideológica que resulta em organização e ação política para atingirmos nossos objetivos, creio que os métodos criem divergências em formas de atuação. Contudo, penso que precisamos ter mais clareza do que representa realmente determinadas palavras, e se preciso for significá-las, o que depende de formação, claro. Seguimos!

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  2. Acrescento que os textos são ótimos e fecho, porém fiz o comentário pegando como link essa discussão, porque me intriga, essa coisa de apolítico, ou política não resolve.

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  3. O texto é muito bom, pois temos que levar em consideração o contexto em que ele foi escrito, a década de 40, época de ações diretas e germinação de outros fortes movimentos de contracultura que explodiriam nos anos 60. A questão apolitica é discutível, acredito que ele não disse exatamente que '' politico não serve pra nada '' e sim que tenha usado algumas expressões pra demonstrar que eles não estavam representando de maneira ética o interesse da população , o curioso é ver um texto de 1946 seja tão atual em 2012. Reinterpretando o texto, levando em conta que os politicos não estavam agindo conforme interesse da população e sim em beneficio proprio ele justifica com o argumento de que o problena não é a pessoa que ocupa o cargo e sim a forma de sistema social com a exploração do homem pelo homem,

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